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Frida e eu

7 jul

Eu tinha 18 anos quando ouvi falar de Frida Kahlo pela primeira vez. Fiquei de imediato apaixonada por sua beleza e pela beleza de suas obras. 

Foi conhecendo Frida que eu mesma me descobri bela e intensa. E pude reconhecer em mim as qualidades existentes nas artes criadas por mulheres. 

Foi com Frida que me entendi artista. Foi com Frida que meu corpo reconheceu sua beleza. 

Frida é uma artista que usou seu corpo e sua alma ao extremo: transformou a dor e a vida em arte.

Sua transmutação é a minha. Seu espelho é meu. Sua arte é a própria vida. Sua vida sou eu. 

Foi você…

9 ago

Meu conto de fadas favorito é A Bela Adormecida. Não sei quando tive contato com ele pela primeira vez. Minhas memórias visuais mais fortes são a animação da Disney e um que passava na TV Cultura, da série “Teatro dos Contos de Fada”. Esse aqui ó:

e tinha até o superman!
…parei de escrever e assisti tudinho de novo…

Meu pai me chamava de princesa. Eu não tinha tiara brilhante. Fingia ter uma dourada como a da Aurora da Disney, só que ela era branca e de plástico. Considerava linda. Meus vestidos de princesa eram feitos pela minha avó. De algodão, simples e como eu desenhava: vestido rodado e de manguinha bufante. Eu não brincava com ele para me sentir uma princesa. Gostava do modelo e usava em festinhas normais. Era apenas um vestido, mas era o meu vestido amarelinho de princesa feito pela minha avó. Isso já era mais do que especial para mim!

Então eu cresci e li uma matéria sobre uma Escola de Princesas… Gente, sério, que raios é isso? Estou só perguntando, nem critiquei ainda! Pode dar uma olhadinha nela, eu espero. Leu? Pesquisou? Conclusões?

Tenho uma sobrinha de 1 ano e um tantinho. Quando ela nasceu quis chamá-la de princesa, do mesmo jeitinho do meu pai. Meu pai e minha avó me ensinaram a não ser uma princesinha, pelo contrário! Me ensinaram a ser uma pessoa, só isso. Calma. Eu explico. Foi mais ou menos assim:

Era uma vez uma menina chamada Marília. Que queria se chamar Heloísa e adorava a princesa Aurora. Essa menina Marília cresceu em uma casa comum na grande cidade de São Paulo. Na sua casa, moravam seus pais, sua irmã e seu avô, que cuidava das meninas quando papai e mamãe estavam trabalhando. Seu pai e seu avô tinham em comum a habilidade de distrair uma criança com brinquedos de criança. Marília tinha muitos bichinhos de pelúcia, algumas bonecas e uma infinidade de pipas criadas por eles. Ela não tinha brinquedos caros ou tecnológicos e nem frequentava os grande salões da sociedade e, mesmo assim, era uma menina adorável, educada e respeitosa. Marília, assim como sua irmã mais nova, sempre foi uma verdadeira princesa em sua casa: tratada com carinho, atenção e muito respeito (portanto, fazia o mesmo com qualquer outra pessoa). Criada num bairro onde era possível ser livre, Marília costumava sair para empinar suas pipas feitas em casa, jogar bola com os vizinhos e andar de bicicleta. Sua vida era uma perfeita história de fadas. Ela tinha uma família feliz e que a ensinou como ser uma honesta. Fim.


papai cantava pra mim… salve a princesa Aurora…

Eu não vejo nada de errado em se sentir uma princesa. Só acho que existem muitas formas de ser uma. Para mim, não existe nada mais nobre do que o caráter. Se você procurar o que se aprende na tal Escola de Princesas, vai encontrar quase o que se espera de uma dona de casa ideal e ainda toda arrumadinha. Bom, eu aprendi a fazer tudo isso sem precisar me sentir uma dondoquinha ou uma “Amélia”. Ok, comecei a crítica.

O retrocesso no pensar do papel feminino na sociedade está estampado na nossa cara! Claro que devemos saber o que fazer em nossas próprias casas! E isso inclui homens, crianças, adolescentes. Se sentir bela é um direito nosso. Estar em dia com o visual não precisa ser uma coisa ruim nem tão pouco um valor. Ensinar uma criança que o certo é a estética sem se preocupar com o conteúdo desse ensino é um crime! Não entendo qual a dificuldade das pessoas em educar seus pequenos de forma humana! Criança é criança, e criança muito limpa é motivo de desconfiança. Criança que parece adulta é motivo para desconfiar dos pais!

Se estivéssemos mais preocupados em ensinar nossos valores aos nossos filhotes, menos cretinos, madames, dondocas, mimadinhos e tantos outros adultos esquisitos estariam pela rua falando groselha… Tá bom que eu falo palavrão, mas de valores reais, eu entendo! Mais humanidade e menos fantasia, por favor!

Beleza é uma questão do ser, não do estar

22 maio

Li este texto aqui sobre a depilação e estou pra lá de aliviada com o fato de alguém ter escrito isso. Esse assunto é bem delicado para as mulheres. Sem dúvida, as “exigências” estéticas dentro do mundo feminino são absurdas.

Uma mulher comum se sente obrigada a manter uma lista diária de metas a atingir. A depilação é apenas um pequeno item. Tenho amigas que não se depilam e são incrivelmente felizes assim, sem dor. Gente, dói! Dói pra burro! Não é só a dor física, é uma agressão moral, íntima! Tem gente que não liga, claro. A sensação da pele lisa e livre de irritações é maravilhosa. E eu, como tantos homens e mulheres, adoro. Mas vamos com calma: por que fazer isso? Por quem? Ter pelos implica em quais questões humanas?

silêncio

Pois é. Não obtive repostas aceitáveis. Eu não gosto de ter pelos. Na verdade, não gosto de muitas coisas. De uns tempos pra cá, passei a refletir se esse meu gosto pessoal vale a dor das sessões de autoflagelo. Vale? Perguntei o mesmo a alguns “interessados” e quase todos os homens me responderam “sim”. Óbvio! Se só existisse o conforto ao invés da dor, até eu concordaria! Mas e o que eu sinto? Esse deveria ser o primeiro aspecto a levar em conta. Papo sério, por que tirar sarro de quem não se depila ou ainda chamar de desleixada a mulher que escolhe não arrancar algo do seu corpo?

Vai me dizer que você nunca fez isso?

É difícil fazer parte de uma sociedade tão fundamentada no culto ao corpo. Ela nos cobra e nos expõe a todo o instante. Se não sou como dizem que uma mulher deve ser, não sou aceita e pronto! Quando alguém vai me perguntar o que eu acho? Como vou dizer se quero ou não fazer parte disso?

A minha insatisfação com esse mundo voltado ao exterior está diretamente ligada ao fato de nunca ter feito parte do seleto “grupo padrão de beleza” somado à minha personalidade questionadora. Se eu fosse igual às outras “bonitas”, provavelmente nem teria esse blog!

photoshoppraticamente isso

Para mim, nunca foi fácil. Não era, e talvez ainda não seja, considerada um modelo a ser seguido nem dentro da minha família. Fui ridicularizada e até ofendida por muitos familiares por ser a “do contra”. Além de ser gorda, eu sou bocuda [e não me vem com cheinha, excesso de gostosura e esses eufemismos ridículos! Inclusive, o importado plus size me irrita profundamente. Eu sou gorda, e daí?]; e falo palavrão! Por que não posso? Meu pai também falava!

A luta é árdua. Não sou magra desde que menstruei e ainda sofro com isso. Posso fingir ser muito bem resolvida com meu meu corpo, só não posso fingir que não escuto as piadas. A diferença está no meu olhar: vejo uma mulher linda e cheia de mistérios no meu espelho. Uns dois anos atrás, eu saía na rua como uma criaturinha assustada. Hoje eu sou uma leoa! Não vejo sentido em deixar o medo da aceitação me derrubar, sou mais um sorriso. Por ele eu me esforço todos os dias.

Vomitar minhas revoltas era uma maneira de me sentir respeitada. Hoje a coisa é outra. Demorei bastante tempo para entender o verdadeiro conceito de beleza. Descobri na escrita, na tatuagem e na arte o meu lugar. Um artista é belo por essência. O físico não importa quando você tem algo a dizer. Penso, sinto, escrevo. Crio no palco. Transformei o meu corpo em uma grande contação de histórias.

andré e má - Cópiatenho oito lindas histórias para contar

Sou a favor da valorização do ser, não sou mais contra o mundo. Tampouco sou cega. Eu babo num tanquinho masculino! Diferente daqueles que torcem o nariz para os corpos normais [somos maioria, nem vem!], busco no olhar alguém para estar ao meu lado, não na bunda ou na depilação! Bunda é legal, também gosto.

Não existe o corpo perfeito ou bunda lisa que substitua o carinho, um olhar amigo ou um abraço verdadeiro. Esse é o sentido da vida! [contei] Padrão estético de aceitação? Quem precisa disso que se despeça de mim. Eu utilizo apenas a escala de caráter como eliminatória.

P.S.: meu texto estava terminado quando li este aqui no Papo de Homem. Não sofri metade das violências apontadas no texto. Sofro outras. Sofri tantas. Ainda estou digerindo. Achei prudente não discorrer sobre.
Leiam.