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uma carta para a vida

13 nov

é dona vida, a senhora sempre está me ensinando coisas valiosas. a senhora me ensinou a amar, me entregar e a escrever cartas. só uma carta a senhora não me ensinou a escrever, a carta de despedida. a senhora veja que coisa boa, essa eu não vou aprender a escrever nunca! e isso é certamente um bom aprendizado. a senhora também me ensinou a conhecer pessoas e esses laços que a senhora dá são tão belos e tão firmes! uma das pessoas que a senhora gentilmente me apresentou foi a minha avó, dona neide.

dona neide é uma mulher forte, sensível, carinhosa, feliz. dona neide é uma mulher boa. capaz de abrir os braços para todxs que chegam a ela. e dona neide também sabe ensinar, como você. ela me ensinou a alimentar todxs com carinho, respeito e amor, me ensinou a sorrir mesmo chorando e a gargalhar sem medo. dona neide sempre me ensinou a confiar em mim, nos anjos da guarda e nas orações. ela me ensinou que pessoas passam por nossas vidas e nem sempre ficam, mas deixam algo de muito importante na gente. dona neide sempre nos acalma e nos trata com gentileza. sempre sorrindo… agora mesmo eu escuto a sua voz doce me dizendo “oi filha”… é uma voz muito bonita que cantarola enquanto cozinha. para dona neide, xs amigxs também são parte da família. e elxs merecem o mesmo calor que vem do ninho de sangue.

na casa de dona neide, as portas estão sempre abertas e sempre bate sol. lá sempre se dorme tranquilx e segurx. lá se brinca, se colhe e se planta. e depois de tanta brincadeira, tem sempre um café cheiroso para se tomar. lá na casa dela, a cozinha é grande e sempre cabe todo mundo sentado à mesa. tem festa e tem churrasco, com direito a sobremesa e café da tarde. lá se prepara daquilo que todxs gostam. é só pedir que ela faz. às vezes nem se pede, basta chegar e lá está, tudo aquilo que você deseja dela. dona neide tem o abraço mais gostoso e mais quente da vizinhança. por isso a casa está sempre cheia de gente feliz.

pois é vida, parece que dona neide acabou me ensinando muito mais que você. mas não fique chateada com isso não, que ela também pode te ensinar o que eu aprendi. é só sorrir pra ela que ela lhe sorri de volta. sabe vida, essa semana a senhora levou dona neide pra outro lugar. eu até tentei ficar brava com a senhora, mas dona neide diz que isso não leva a nada. eu fiquei triste com a senhora. por não ter me deixado ficar com ela mais um pouquinho. até eu casar, ter filhxs, escrever um livro. essas coisas que a senhora sabe que eu quero. mas a tristeza vai passar, eu sei.

do lado de cá a gente sabe que dona neide, minha avó, era também uma mãe pra mim. e pra mais um monte de gente… ela é tia-mãe, avó-mãe, mãe-mãe, primeira-mãe, segunda-mãe… é que não acaba mais. ela é mãe que a gente escolhe e que fica feliz de ter se não escolheu. por causa dela eu sou quem sou e como sou. por causa dela eu sou mulher que fala de mulheres, que escreve sobre mulheres, que ama mulheres. foi ela que sorriu quando eu fiz a minha primeira tatuagem e que me disse que a dor de amor também passa. foi pra ela que eu contei que gostava de homens e mulheres sem medo e que escrevi mais cartas. foi pra ela que liguei quando precisei e quando senti saudade. e é pra ela que eu dedico a minha vida.

sabe dona vida, dona neide morreu essa semana, mas ela sempre esteve e estará comigo. é por isso que agora eu não sinto um vazio no peito. agora eu sinto amor. dela, meu e nosso. eu tô preenchida de dona neide pra sempre. por isso, vida, eu vou te contar que com ela eu aprendi que viver é morrer e morrer é viver e vou te ensinar uma coisa bem importante: quem a gente ama não vai embora, fica pra sempre no presente. e é em respeito à minha avó, dona neide, que hoje eu não estou de luto. estou de vida.

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13 jul

Hoje me deu uma vontade imensa de escrever. Foi um daqueles momentos em que eu adoraria sentar em frente a uma bela paisagem, abrir as cortinas para o sol entrar morno, sentir aquela brisa leve e agradável e escrever uma carta a alguém. 

O “problema” é que não tenho nada pra compartilhar com ninguém. Tudo o que tenho pra dizer é para mim mesma e não posso me mandar cartas. Quer dizer, até poderia, mas com que intuito? Para aguardar uma resposta de mim mesma para perguntas que não sei mais fazer? 

Acho que a minha falta de comunicação está buscando um remetente misterioso. Desses que antigamente se colocavam à disposição de quem quer que fosse nos jornais. Ainda existem esses anúncios? Talvez eu deva criar o meu. É isso! Criarei um anúncio para correspondentes:

Respondo todo e qualquer tipo de carta desde que escrita com a maior honestidade. Brinco em serviço, mas sempre de forma respeitosa. Aceito cartas anônimas e de desconhecidos desde que venham assim sinalizadas. Crio cartas de amor e posso corresponder ao seu de forma real ou fictícia. Aguardo respostas e aguardarei sempre. Responderei sempre com amor.

Enquanto você não chega

5 mar

Você talvez ainda não me conheça. Quem sabe se vamos nos encontrar nesta vida, mas eu quero muito conversar com você agora. Posso?

Filho, filha… se um dia você vier, eu prometo tentar te escutar sempre. Prometo nunca me vingar ou tentar te envergonhar por qualquer erro que você venha cometer. E saiba, nós dois cometeremos muitos erros.

Filha, filho… enquanto você não chega aqui dentro, eu vou me cuidar e tentar me preparar para ser uma boa pessoa. Olharei e escutarei com mais calma os acontecimentos do mundo e respirarei muitas vezes antes de agir.

Meu filho, filha… a possibilidade de você existir ainda parece muito distante. Não estou grávida e nem planejando ter você neste momento. Estou me preparando para, um dia, me tornar um ser de amor. Uma mulher mais compreensiva, amiga, paciente e carinhosa. Com você ou qualquer outra criança, jovem ou adulto.

Filhinha, filhinho… não podemos deixar que a frustração, a tristeza ou mesmo a raiva se transformem em violência. Nem verbal, nem física. Nunca.

A mamãe vai errar. E muito! Eu também tenho medo que isso aconteça, mas um erro é só um erro.

Acredito que sempre nos perdoaremos por amor. Mesmo que você nunca chegue.

Suas nossas cartas

6 ago

“Lembra daquela carta que você me enviou?”

Não. Desculpe, não lembro.
Eu não envio cartas comuns,
são presentes muito específicos para quem lê.

Tudo seu, sem mais eu, não mais meu.

De um prazer maior
surgem letras ajuntadinhas.
Delas surge todo um mundo criado
e especialmente esquecido
para ser só seu.

Minha inspiração é o teu reflexo.

Você.

Como eu, simples e ignorante,
lembraria de algo tão grande quanto as palavras,
mais suas do que minhas que agora escrevo?

A liberdade de escrever foi você quem me deu
no dia em que permitiu que eu te lesse por inteiro.

Cartas sobre os versos

13 abr

A concretude das minhas cartas está na poesia do meu pensar.

Foi assim que eu comecei a sua carta e ela, como tantas outras, permaneceu comigo.

As cartas são mais definitivas que a própria morte.

Não, não me questione ou desdenhe de minhas palavras.

Eu as crio a partir do fogo e delas faço a chama inextinguível.

 

Parei de enviar cartas quando as parei de receber.

Não todas, naturalmente.

Algumas são enviadas sem que nenhum resposta seja esperada.

Mas a sua… A sua foi guardada com a dor da perda.

Nós. Perdidos.

Primeira carta

27 set

Querida Sarah,

Como tem passado? 

Aqui, o silêncio da primeira noite tomou por completo o lugar dos vazios da alma antes preenchidos por minhas tantas angústias. Os sons são constantes tanto aqui quanto em nossa pequena e já esquecida casa. Entretanto, os que ouço ao escrever esta carta curam as nossas antigas feridas à medida que os escuto. Seria possível me desligar totalmente do que tínhamos lá?

Antes de partir, decidi me retirar por alguns dias e refletir, o que não ocorrerá, como você bem sabe. Somente agora eu entendo a importância de não fazê-lo. Ao invés de colocar em prática a minha planejada reclusão, farei uso das poucas horas silenciosas que tenho para criar algo maravilhoso, como você costumava dizer que faria.

A natureza me presenteou com este dom em minha primeira manhã. Ao admirar uma flor, pude encontrar nela os símbolos magníficos que tanto procurava. Havia em suas pétalas a plenitude de uma vida, sua humilde existência.

Ah, Sarah! Minha querida Sarah! Se existe um lugar neste imenso mundo onde as horas demoram a passar, este lugar é aqui. E nisso, não há em absoluto nada de ruim. Imagino o quão difícil foi para você retornar. Algo que farei em breve, mas não já.

Gostaria que estivesse aqui.

Carinhosamente,

Amy

Boston, 12 de Novembro de 1887