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Cena 3 – Ela

3 jun

Uma poltrona onde está sentada. Ao lado, um espelho de corpo e uma mesinha com um abajur, uma garrafa de vinho pela metade, duas taças, um cinzeiro e um telefone. Meia luz. Peças de roupa e cartas estão espalhadas pelo chão. Ela toma vinho. Sozinha, conversa com um retrato. Toda a ação é feita com longas pausas.

ELA – Ela disse que era uma despedida. Também me pareceu. Não soube como reagir. Fiquei lá plantada esperando você me dizer “adeus” e nenhum som saiu da sua boca. Seus olhos claros nem encontraram os meus! Que terá sido? O silêncio ou o medo?

Bebe vinho. Acende um cigarro.

ELA – No fundo, eu preciso de você.

Recolhe algumas cartas e lê. Algumas ela rasga. Outras queima com o cigarro. Anda pelo quarto. Olha-se no espelho. Cola o retrato dele e o admira sorrindo. O telefone toca. Lentamente ela caminha até a poltrona, pousa o cigarro no cinzeiro, senta e atende. 

ELA – Sinto muito.

Desliga. Veste uma camisa masculina. Cheira. Dança.

ELA – Eu tentei dizer a ele tudo o que sentia! Eu juro! Ainda sinto, mas ele não entende! Talvez eu não saiba me expressar tão bem ou com tanta ardilosidade como ele.

Cai no chão. Rola por cima das roupas e dos papéis se emaranhando.

ELA – Estávamos lado a lado por escolha nossa. Tive de desistir. Não foi uma decisão racional, entende? Foi uma necessidade da minha alma!

Ri.

ELA – É a terceira vez que ele me liga. Eu gosto. Sinto um gostinho de vingança cada vez que desligo na cara dele.

Rasteja até o espelho. Levanta. Tira a camisa e pendura no canto contrário ao do retrato.

ELA – Sinto muito.

Conversa com seu próprio reflexo.

ELA – Mesmo que seja para atirar nossa relação ao longe e te arrancar do meu coração como se faz a uma erva daninha, prefiro, hoje, lançar ao vento todas as nossas migalhas e deixar que o destino se encarregue de fazê-las me reencontrar.

Apaga o cigarro. Se arruma. Liga para alguém.

ELA – Preciso te ver.

Ele entra.

ELA – Você me deu um abraço tão morno…

Prólogo

23 dez

Ela chegou em casa, mas recusou-se a entrar. Sentou encostada à porta e respirou profundamente. Sabia que teria uma importante decisão a tomar. Tirou da bolsa um antigo livro e apertou junto ao peito.

Como num sonho, uma cena enevoada de sua adolescência voltou à sua memória. Fechou os olhos.

Uma senhora está sentada entre as pessoas. Uma jovem chega e ajoelha próximo a ela. A mulher encostada na porta permanece de olhos fechados.

– Vózinha, a senhora já sofreu por amor?

– Por amor? (Disse sorrindo sem tirar os olhos do velho livro.) Filha, não se deve sofrer por amor.

– Mas a senhora nunca teve algum amor que a deixou magoada?

– Dos amores antigos, mesmo os que deveriam deixar mágoas, guardo somente algumas boas lembranças. O que foi triste, simplesmente ‘foi’.

– Um dia, eu pensarei no meu passado e serei como a senhora. (Tentou esboçar um sorriso. A avó baixou o livro e observou a jovem que tentava conter as lágrimas.)

– Meu bem, o passado é como a areia. Voa fácil com o vento e, vez ou outra, entra nos olhos da gente fazendo brotar uma lágrima. Mas como é preciso seguir em frente, uma brisa leve soprada por um anjo passa e carrega o grão de areia dos nossos olhos.

– Acho que a senhora tem sido meu anjo nesses últimos tempos… (Fechou os olhos e deitou a cabeça no colo da avó.)

– Talvez, minha filha. (Sorriu e acariciou os cabelos da neta.) Talvez…

Abrindo os olhos, desejou que a avó estivesse com ela naquela noite, mas precisava seguir em frente e deveria fazer isso sozinha. Finalmente, entrou em casa. Precisavam conversar.

As portas do teatro se abrem. A mulher segue para o palco e o público entra na sala. Começa o diálogo.

Cena – Presente a quatro mãos

22 nov

(Contra-luz branca. Cada mulher permanece em seu nível tentando organizar o ambiente. Tanto o primeiro quanto o segundo andar estão totalmente destruídos. A cena inicia ao silenciar da guitarra.)

– Às vezes eu acho isso também.

– O quê?

– Quando eu vivo alguma coisa com uma pessoa que pra mim foi significativo. Eu tenho essa mania de achar que pra pessoa foi também.

-Sim, sempre é.

– Não. Depois eu percebo que pra ela não foi.

-Vai ver é isso.

– E fica parecendo que eu inventei toda a história.

– É, é isso.

– E agora, o que faremos?

– Acho que a gente volta a acreditar.

-Sério mesmo? Acreditar em quê? Ou em quem?

– Não sei!

– Por favor, vida, prove que estamos erradas.

-Por favor, por favor!

– Não é possível que a gente tenha viajado tanto assim. Quando você olha nos olhos da outra pessoa, você enxerga uma série de coisas que não precisam ser ditas com palavras…

– Quando eu olho nos olhos, quero dizer o mundo. E eu digo. Tem gente que não diz, mas eu leio mesmo assim. Assim, tudo é mais fácil.

– No fundo é tudo medo. Medo de arriscar. Medo de mudar a vida.

– Isso eu entendo. O que eu não entendo é porque alguém não pode viver um dia com você. E não uma vida inteira.

-É bonito isso. “Eu entendo que você não queira viver uma vida comigo. O que eu não entendo é como você pode não querer viver um dia.”

– No fim, um dia é apenas uma semente de uma grande existência, não uma vida inteira.

(Fim da cena.)

Cena 2 – Diálogo

24 fev

Continuação. Casal abraçado. Muitas almofadas coloridas pelo chão.

Ela – Querido, há algo que você precisa saber sobre mim e eu não sei como te falar…

Ele – Está tudo bem, amor! Você pode me contar tudo o que quiser e eu continuarei te amando sempre.

Ela – Não sei se ainda te amo como antes.

Ele – Como assim? Antes? Antes do quê?

Ela – Não fique nervoso! Eu  não vou te deixar. Eu apenas não sei o como eu te quero entende?

Ele – Não…

(silêncio)

Ela – Amor, e se a nossa vida juntos precisasse de um novo sentido? Uma grande mudança, você continuaria ao meu lado?

Ele – Querida, você está grávida?

(ela cora)

Ele – Querida?…

Ela – Se eu estivesse, seria um problema?

Ele – Você está?

Ela – Não.

Ele – Nossa amor! Não me assusta assim!

Ela – (achando graça) Você tem medo de ser pai?

Ele – Não. (sorriso) Tenho medo de não estar pronto quando o momento chegar.

(silêncio)

Ela – Eu quero mudar para o Japão.

Ele – Japão? O que tem no Japão?

Ela – Não sei, por isso quero descobrir.

Ele – Meu Deus! Você toma uma decisão dessas sem me consultar?!

Ela – Eu estou fazendo isso agora, não estou?

Ele – Certo…Está…Mas…

Ela – Mas o quê? Você não me disse que me amaria sempre independente do que eu dissesse?

Ele – Sim, eu disse. É  que você está me deixando confuso.

Ela – Não fique. Eu não vou a lugar nenhum sem você.

Ele – Agora estou mais confuso ainda!

Ela – Está tudo bem. Eu te amo. Você me ama mesmo confuso?

Ele – Claro que eu te amo, querida!

(um beijo)

Ela – Amor, estou grávida.

Ele – Querida, vamos mudar para o Japão?


Cena 1 – Diálogo

4 dez

– Estou com medo.

– Já não há mais tempo.

– E se o medo for do tempo?

– Do tempo que se foi?

– Não, do tempo que ainda está por vir.

– Então é um medo justificável.

– Não, é apenas medo.

– Apenas medo? Nada é apenas algo. É sempre mais do que um apenas.

– Mas então, você tem medo de quê?

– De não encontrar.

– Encontrar o quê?

– A entrada.

– A entrada para onde?

– Para o tempo.

– Você está equivocado, devia procurar a saída.

– A saída para onde?

– Para o medo.

– Eu não tenho medo.

– Medo de nada?

– De nada.

– Como ‘nada’?

– ‘Nada’ é apenas nada.

– Nada é apenas medo.

– Tem razão.

– Tenho?

– Sim. Eu deveria estar procurando a saída.

Continua.