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a humanidade chora

31 mar

enquanto professores e estudantes da rede estadual paulista (e tantas outras) imploram por justiça para que possam trabalhar com dignidade, uma parte injusta (e cheia de poder) da nossa sociedade prefere metralhar uma criança a abraçá-la e nutri-la com todo o amor e respeito que esta merece.

a injustiça acredita que punir é um bem maior que educar e o resultado disto é este ciclo no qual estamos aparentemente presos: violência, criminalidade, desinteresse político, ignorância, preconceito, desigualdade, desamor…

segundo o atual dalai lama, compaixão é a noção clara de que todos os seres têm exatamente o mesmo direito à felicidade. você acredita nisso? você entende isso? não podemos voltar no tempo e começar de novo, mas podemos parar e darmos início ao que é certo.

enquanto estamos “todxs” seguros, bem alimentados e começando mais uma pós-graduação, alguém chora de fome, frio e medo. alguém não voltará pra casa nunca mais. algum familiar nunca mais terá sonhos de ver suas crianças formadas na faculdade. alguma criança nunca aprenderá a ler ou escrever e nunca mais sairá do sistema prisional. tudo isso porque não tivemos coragem suficiente para enfrentar nossos preconceitos, medos e responsabilidades.

 

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Esse mês foi assim:

27 out

Foi um mês muito intenso no coração, no trabalho e na política. Militância não é partidarismo e muito menos trabalho voluntário em tempos de eleição. Luciana Genro era minha candidata e ela não chegou ao segundo turno, a esquerda não “ganhou” a luta. A esquerda está na a luta de sempre! Os ânimos estão muito conturbados. Muitas informações, mentiras, discussões, agressividade, medo. A discordância gera cada vez mais perguntas, e eu as adoro. O que ferra é a falta de vontade de se informar.

Minha militância pró-Dilma foi totalmente natural. Deixei de lado minhas desavenças com o PT e agi com muita consciência. Era preciso tomar uma posição. Claro que, para algumas pessoas, isso pareceu um absurdo. E vou te dizer, a recíproca também é verdadeira. Foi bem esquisito ver pessoas que se dizem tão preocupadas com um mundo mais justo cuspirem na esquerda, no PT, na Dilma, no PSOL e nos programas assistencialistas necessários à sobrevivência de boa parte da população. Mais estranho ainda foi ver a juventude gritando por ditadura. Tem gente aí que “esqueceu” a própria história.

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Quem se envolveu em alguma das campanhas desde o 1º turno ouviu do mais simples “como uma pessoa tão esclarecida como você…” ao mais revoltoso dos comentários. Busquei não entrar nas brigas, não excluir ninguém e responder aos questionamentos com base nas políticas sociais dos candidatos e dos partidos. E pesquisar. Muito.

Fiquei um tanto incomodada com os que brigavam pelo não posicionamento, principalmente na internet. Foi comum escutar as pessoas dizendo que o povo é burro, não se interessa por política e por isso tudo vai mal. E foi ainda mais comum ouvir essas mesmas pessoas não querendo que você fale de política em lugar nenhum! Meu filho, francamente!… Todo mundo de saco cheio? Nós também. No entanto, nem todos foram assim. Tive a oportunidade de conversar com muitos colegas e familiares de diferentes visões políticas e, na maioria das vezes, nossas diferenças foram tratadas com muito bom humor.

bagunça!

todos unidos por nós todos

Ontem foi um dia bem tenso. Rolou mal-estar, ofensa e muito amor. Contradição? Não! Amigos. Reunimos a galera pra uma festa da Dilma ou pra um lamento do Aécio. Tinha petista, anti-petista, gente em cima do muro, namorados do PSOL (como eu), nulos, brancos, indecisos… Eram meus amigos. Demos um grande suspiro de alívio e comemoramos. Alguns não comemoraram a “vitória” da Dilma, mas aquele momento lindo que é ter amigos reunidos. Logo passou esse respiro e começamos a focar novamente na luta.

Não quero entrar num embate como o que se apresentou mais uma vez nessa eleição. Chega de surdez e de discursos de ódio. Calem as bocas e os dedos, vamos respirar e pensar antes de dizer algo. Nos perguntar: eu preciso mesmo dizer isso? Eu gostaria de ouvir isso? É isso mesmo que eu penso? Sou agressivo assim?

“Talvez ninguém, ou poucos de nós, tenha nascido em berço de ouro, mas todo mundo aqui tem berço, todo mundo aqui tem origem, todo mundo sabe de onde veio e pra onde quer ir. Nós não podemos deixar que dividam o Brasil ao meio, porque o Brasil é um só, porque o Brasil quer uma coisa só, porque o Brasil é composto de muito povos mas tem a mesma alma e essa alma não é divisível.”
Haddad, nosso prefeito

Ninguém precisa se ofender. Mas se eu o fizer, me avise. Prometo fazer o mesmo por você. Todavia, caso eu considere algumas palavras extremistas, talvez a gente não se encontre mais. Já fiz as minhas escolhas e o conservadorismo não faz parte delas. De olhos abertos e o coração forte, vou orar por aquele mundo melhor que eu acredito.

Sobre o meu voto, eu vou cobrar. Vou apoiar e recusar. Participar mais. Estudar mais. Não estou satisfeita e a alegria é parcial. Sou artista, educadora, classe média de São Paulo, sou mulher, feminista. Sou de esquerda.

A militância começa agora. Bom Brasil pra todos nós!

Adultos! Atenção!

15 jul

Hiperatividade e falta de atenção são problemas. São mesmo? Oras, se você deixa uma criança presa dentro de casa acompanhada apenas por aparelhos cheios de estímulos visuais rápidos e de pouca reflexão, que tipo de criança você pretende encontrar? Se cada vez mais a escola barra a discussão e a movimentação física e criativa das crianças, que tipo de criança você espera educar?

Faço essas perguntas desde que comecei a trabalhar em escolas. Minha formação é artística, sou professora de teatro. Trabalhei em três tipos de escolas: “normais” de classe média, de classe bem alta e em um instituto para crianças e adolescentes cujos pais perderam a guarda [dentro da antiga FEBEM]. Encontrei nos três tipos de instituições uma grande massa homogênea que segue o bando como um cardume, aqueles que se destacam por serem muito interessados em algumas coisas e os que se isolam de todo e qualquer tipo de grupo por “não fazerem parte”.

Minha irmã e meu ex-namorado eram do grupo isolado. Não quer dizer que não tinham amigos ou não estavam no meio da galera, muito pelo contrário. Mas eles eram sim diferentes. Ambos foram diagnosticados com Dislexia ainda quando crianças. Nós três estudamos na mesma escola, a tal “normal” de classe média, onde trabalhei por alguns anos após me formar. Estilo vestibular, sabe? Nem é preciso nomear, são muitas no Brasil e certamente você pode encontrar uma como parâmetro. Ao informar à escola da Dislexia da minha irmã, você sabe o que os professores fizeram? “Nada” teria sido muito bom…

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Uma escola tradicional não está interessada nesse tipo de aluno. Essa é a verdade, não sofra. Alguém com dificuldade de concentração não consegue “materializar” seus pensamentos sob pressão e isso, para a escola tradicional, é um número abaixo da média. Numa instituição como esta, o número de aprovados no vestibular [também tradicional] é o que conta. O erro consiste em não aceitar esse tipo de aluno e não ajudá-lo no processamento das informações. A crueldade é passar por cima de suas dificuldades em nome do padrão exigido. Portanto, se você se encaixa no perfil “atrasadinho” da turma ou que entende tudo e não consegue fazer provas corretamente, desconfie, pois você pode ter um problema: a sua escola.

Nem sempre um aluno vai mal porque tem algum transtorno ou mesmo porque é preguiçoso. Vejo muito mais preguiça em quem “ensina” do que no aluno. Muitas vezes ele simplesmente não se interessa pela informação! Como culpá-lo? A escola tem se tornado um ambiente hostil e muito desinteressante! Pra que prestar atenção em algo que você não entende ou nem vê a aplicação? Se esforçar para responder corretamente uma pergunta se não estão interessados em ouvir o que você tem a dizer sobre o assunto? Quando exigimos das crianças o acerto acima de tudo, as impedimos de saboreiem algo valiosíssimo: o processo de descoberta. Ele fará muita diferença lá na frente.

Taare Zameen Par [Como Estrelas na Terra], 2007

Eu sofri bastante ao ouvir o que minha irmã e o Carlinhos passavam na escola. Foram ofendidos muitas vezes por professores, colegas e coordenadores. Não estou exagerando! Foram ofendidos mesmo! Todas as vezes que a minha irmã chorou por se sentir burra após zerar uma prova, eu chorei com ela. Nós estudávamos juntas e eu via que ela sabia toda matéria. Tinha certeza de que não era burra! O Carlinhos foi chamado de manipulador quando tinha 6 anos! SEIS ANOS!!! Não tenho nem palavras para expressar minha revolta com esse tipo de “educador”.

Quando a Rachel resolveu mudar de escola, o fez porque já não aguentava mais ser chamada de burra e acreditava que meus pais estavam gastando dinheiro à toa com ela, já que provavelmente ela repetiria mais um ano. “Misteriosamente” ela se tornou a melhor aluna em Física e fechou o ano com notas 10 bem antes dele terminar. O método fez toda a diferença! Sua ansiedade deixou de ser um problema quando ela encontrou um meio de se expressar. E nem estou falando de anos de terapia ou de uma busca pelo entendimento do ser humano. Estou falando de matemática, química, geografia…

images“o espírito do conhecimento e o pensamento criativo foram perdidos na esteira da aprendizagem mecânica”, palavras dele!

Li uma matéria comparando a porcentagem de crianças com TDAH nos EUA e na França e desembestei a escrever. Assim como a Dislexia, TDAH é uma coisa bem séria! Os remédios são pesados e a terapia é para quem realmente precisa dela.

Por isso, atenção! Antes de entupir o seu filhote com remédios ou enfiá-lo dentro de um consultório, verifique se a forma como você o conduz a vida dele não precisa ser alterada e se o método no qual você matriculou o seu filho é a melhor orientação para ele. Somos muito diferentes até mesmo entre os muito semelhantes e cada um pode ou não desenvolver habilidades de acordo com a maneira como são propostas.

Diagnosticar é bom. Melhor ainda é educar com amor, atenção e paciência.

*aqui a matéria sobre o assunto

O professor ensina, o educador aprende.

22 maio

Depois do ensaio de ontem, contei para minha linda Daniella Rubio da minha dificuldade em permanecer/entrar em instituições de ensino.

Eu adoro aprender. Gosto mesmo de estudar. Eu gosto disso na roda, na conversa, durante o correr do meu dia. Com 27 anos, eu posso escolher a forma de colher meus próprios conhecimentos. Nem sempre foi assim. Um dos professores que mais pegou no meu pé, ou seja, aquele com quem eu mais bati de frente, sempre dizia nas aulas: você sempre tem uma opção.

Guardei essa, Rodão! Por mais que a gente se odiasse e você dissesse isso para diminuir os que faziam teatro na escola, você me ajudou muito. Obrigada!

tiao2pedagogia do saber popular

Eu sou adulta, formada em colégio tradicional e graduada em faculdade estadual. Mesmo estudando artes, tudo foi quadradinho. Desenvolvi uma certa fobia! Nem curso de dança eu consigo fazer! E olha que eu adoro dançar.
Meu diploma de Licenciatura em Artes – Teatro não me fez dar aula, mas me faz aprender muito.

Até hoje eu não sei o que tem de bom nesse tal Machado de Assis. Todo mundo gosta e lembra de ter lido. Eu sei que li, era obrigatório. Qual livro? Do que se tratava? Sei lá! Tirei péssimas notas em quase todos os anos de colégio, passei pelo temido Conselho de Classe e misteriosamente entrei em 27° lugar de uma lista de 10 mil pessoas na primeira faculdade que prestei vestibular. Nem eu entendi essa. Eu não sabia que era inteligente até agora a pouco.

Vai ver, é uma coisa de método. 
Vai ver, tem paredes demais.
Vai ver, não tem roda de conversa.

Minhas melhores aulas eram feitas em roda. Não só no formato. Lembro de professores que ficavam lá na frente das tradicionais fileiras de carteiras e tinham tudo no pensamento, menos algo de quadrado. Tive aulas embaixo de árvores maravilhosas que não significaram nada.

O prazer de estudar vem, muitas vezes, do prazer que sentimos ao ensinar algo.

Sinto falta desse sentimento de empolgação do aprender. De me apaixonar por um autor ou por uma parte da história! Sinto falta do pensar humano.

Estava ouvindo Stravinsky [uma pesquisa pessoal] enquanto lia essa entrevista de 2007 com o educador e antropólogo brasileiro, Tião Rocha falando justamente de não desistir de tentar. De investir no que é real e ainda não foi feito em relação à educação. Esses modelos me aprisionam ainda hoje e eu os detesto, pois não compreendo! Ler a matéria foi um alívio.

Agora posso pensar em dormir com um pouco de alegria. Não precisa ser como ele, nem como você e eu. Só precisa ser de alguma forma nova.

*ele também tem questões com Machado de Assis e eu ainda não sei o que é um hectômetro nem para que serve*