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“In”maginando

5 set

Quando eu imagino o futuro, vejo um lugar amplo onde as crianças correm por entre as árvores e os raios de sol. Também vejo infinitas prateleiras de livros com todos os diferentes nomes que se possa conhecer, inclusive o meu. Vejo cadernos espalhados pela sala de onde brilham letras e traços coloridos como as que vejo no meu corpo refletido no espelho.

No futuro existem muitas boas histórias para contar. Delas escorrem algumas lágrimas e muitas risadas são ouvidas. Não há mais cicatrizes e se pode andar livremente na rua. No jardim se estende uma longa mesa repleta das gerações que construímos. Tod@s cozinham junt@s e dormem sob o mesmo céu.

A fogueira vive acesa e os violões nunca param de tocar. No meio da fumaça, dança. Muita dança e muito canto. Na roda, ninguém pertence a ninguém. Tod@s pertencem unicamente a si mesm@s. Existe amor e existe beijo. As mãos dadas se tocam e se trocam com calor e respeito. É um tempo bom.

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Uma estrela, um sol

21 jun

Foi numa noite que você se anunciou. Ainda tinha outro rosto e até outro nome. Foi chegando como quem não queria nada, mas eu já sabia. Mudaria minha vida pra sempre.

Acalmou. Dormiu. Sonhou. E foi numa outra noite que você se anunciou de verdade. Uma implosão no útero. No dela e no meu. Num abraço te senti ainda pequenina. Uma força sem tamanho.

Numa noite não dormi. Acordei com o telefonema. “Malpha, você é titia!”. Pulei, chorei, sorri. E lá se vão quatro anos de muitos sorrisos. 

E que venham muitos mais. Muios anos de Maria Morena. Minha sobrinha. Meu amor. Minha família. 

uma carta para a vida

13 nov

é dona vida, a senhora sempre está me ensinando coisas valiosas. a senhora me ensinou a amar, me entregar e a escrever cartas. só uma carta a senhora não me ensinou a escrever, a carta de despedida. a senhora veja que coisa boa, essa eu não vou aprender a escrever nunca! e isso é certamente um bom aprendizado. a senhora também me ensinou a conhecer pessoas e esses laços que a senhora dá são tão belos e tão firmes! uma das pessoas que a senhora gentilmente me apresentou foi a minha avó, dona neide.

dona neide é uma mulher forte, sensível, carinhosa, feliz. dona neide é uma mulher boa. capaz de abrir os braços para todxs que chegam a ela. e dona neide também sabe ensinar, como você. ela me ensinou a alimentar todxs com carinho, respeito e amor, me ensinou a sorrir mesmo chorando e a gargalhar sem medo. dona neide sempre me ensinou a confiar em mim, nos anjos da guarda e nas orações. ela me ensinou que pessoas passam por nossas vidas e nem sempre ficam, mas deixam algo de muito importante na gente. dona neide sempre nos acalma e nos trata com gentileza. sempre sorrindo… agora mesmo eu escuto a sua voz doce me dizendo “oi filha”… é uma voz muito bonita que cantarola enquanto cozinha. para dona neide, xs amigxs também são parte da família. e elxs merecem o mesmo calor que vem do ninho de sangue.

na casa de dona neide, as portas estão sempre abertas e sempre bate sol. lá sempre se dorme tranquilx e segurx. lá se brinca, se colhe e se planta. e depois de tanta brincadeira, tem sempre um café cheiroso para se tomar. lá na casa dela, a cozinha é grande e sempre cabe todo mundo sentado à mesa. tem festa e tem churrasco, com direito a sobremesa e café da tarde. lá se prepara daquilo que todxs gostam. é só pedir que ela faz. às vezes nem se pede, basta chegar e lá está, tudo aquilo que você deseja dela. dona neide tem o abraço mais gostoso e mais quente da vizinhança. por isso a casa está sempre cheia de gente feliz.

pois é vida, parece que dona neide acabou me ensinando muito mais que você. mas não fique chateada com isso não, que ela também pode te ensinar o que eu aprendi. é só sorrir pra ela que ela lhe sorri de volta. sabe vida, essa semana a senhora levou dona neide pra outro lugar. eu até tentei ficar brava com a senhora, mas dona neide diz que isso não leva a nada. eu fiquei triste com a senhora. por não ter me deixado ficar com ela mais um pouquinho. até eu casar, ter filhxs, escrever um livro. essas coisas que a senhora sabe que eu quero. mas a tristeza vai passar, eu sei.

do lado de cá a gente sabe que dona neide, minha avó, era também uma mãe pra mim. e pra mais um monte de gente… ela é tia-mãe, avó-mãe, mãe-mãe, primeira-mãe, segunda-mãe… é que não acaba mais. ela é mãe que a gente escolhe e que fica feliz de ter se não escolheu. por causa dela eu sou quem sou e como sou. por causa dela eu sou mulher que fala de mulheres, que escreve sobre mulheres, que ama mulheres. foi ela que sorriu quando eu fiz a minha primeira tatuagem e que me disse que a dor de amor também passa. foi pra ela que eu contei que gostava de homens e mulheres sem medo e que escrevi mais cartas. foi pra ela que liguei quando precisei e quando senti saudade. e é pra ela que eu dedico a minha vida.

sabe dona vida, dona neide morreu essa semana, mas ela sempre esteve e estará comigo. é por isso que agora eu não sinto um vazio no peito. agora eu sinto amor. dela, meu e nosso. eu tô preenchida de dona neide pra sempre. por isso, vida, eu vou te contar que com ela eu aprendi que viver é morrer e morrer é viver e vou te ensinar uma coisa bem importante: quem a gente ama não vai embora, fica pra sempre no presente. e é em respeito à minha avó, dona neide, que hoje eu não estou de luto. estou de vida.

minha última leitura

6 abr

Este é um texto sobre o livro a máquina de fazer espanhóis, do valter hugo mãe.

A primeira coisa que me chamou a atenção para este livro foi a forma sensível do próprio autor falar sobre como a vida e a arte se comunicam no trabalho dele.

Quando peguei meu exemplar de a máquina de fazer espanhóis, recebi o mesmo alerta de duas pessoas: não lê. é pesado… Eles tinham razão. O começo me doeu tanto que o livro ficou parado por uns 3 meses. Quando venci a minha batalha ao lado da Clarice, retomei a leitura. Depois de encontrar meu reflexo, podia enfrentar essa dor também e terminar o livro que eu estava gostando tanto.

a máquina de fazer espanhóis

Meu avô morreu em 2011, enquanto eu estava na praia com amigos. E eu já sabia que isso aconteceria durante essa viagem. Ele estava muito fraco e ficou muito feliz de repente… Sinais que eu vi e que ainda hoje eu sofro por ter ignorado. Falar deste livro é falar do meu avô e de tudo o que eu gostaria de ter feito por ele e ter dito a ele e não o fiz. E isso dói.

Este livro merece um texto que eu ainda não estou à altura de fazer. Seria audacioso demais. Revelar cicatrizes de uma intimidade que não está pronta para se revelar também me dói.

Recomendo muito a leitura. É um daqueles livros que a gente quer dormir abraçadinho e não soltar nunca mais. Ainda mais depois que acaba. Vontade de ficar com ele(s) mais um pouquinho.

meninas

30 nov

Marias e Luas e procedências misteriosas

seguem seu caminho e trombam as águas

esquecem suas origens e me surpreendem num sonho

no entendimento das bocas e seios calores

amor. muito amor.

nutrir e descobrir o eu futuro

O meu herói

18 jun

Esta é uma história sobre heróis reais e é altamente recomendada se você tem, teve ou procura um desses em sua casa.

“Senhor, no silêncio deste dia que amanhece, venho pedir-te a paz, a sabedoria e a força. Quero olhar hoje o mundo com os olhos cheios de amor, ser paciente, compreensivo, manso e prudente; ver além das aparências como tu mesmo, e assim não ver senão o bem em cada um. Cerra meus ouvidos a toda calúnia, guarda minha língua de toda a maldade e só de bençãos se encha o meu espírito. Que eu seja bondoso e alegre e que todos que se aproximarem de mim sintam a tua presença. Reveste-me de tua beleza e que no decurso deste dia, eu te revele a todos.”

Assim começava o dia na residência da família Moreno. Eram as primeiras palavras que ouvia meu pai dizer todos os dias pela manhã e era como se eu orasse junto com ele. De vez em quando, eu deitava na cama dele e ficava lá ouvindo ele conversar com seu livrinho de orações. Tão concentrado que nem percebia onde eu estava.

Sou chegada no meu papis. Ele é o cara pra mim. Minha mãe me conta, que ainda na barriga, eu fazia o maior auê quando ele sentava do lado dela: chutava, virava e revirava até ficar “de frente” para ele. Tempos depois, já fora da barriga da mamãe, eu tinha o hábito de anunciar para a casa inteira que ele estava chegando do trabalho. Nem precisava buzinar ou colocar a chave no portão. Diferente do cordão umbilical e do peito materno, existe uma outra e misteriosa ligação entre pai e filha.

Durante a infância meu pai ficava em casa e cuidava de mim e da minha irmã enquanto minha mãe trabalhava. Ele nos deu banho, nos levou na natação, nos ensinou a empinar pipa e a andar de bicicleta. Ele me ensinou a escutar música erudita, me disse que os Beatles fizeram uma revolução e que Queen é a melhor banda de rock de todo o universo. É culpa dele eu achar que dormir cedo é para os fracos, pois legal é mesmo é passar a noite em claro assistindo O Predador! [Tenho um segredo pra contar: quando o filme acabava, eu fingia estar dormindo, só pra ele me pegar no colo e colocar na cama.]

Na minha casa, só existia uma maneira de nos fazer dormir: contar histórias de pirata! A gente subia as escadas correndo de meia e mergulhava na cama quentinha dele. O suspense se fazia aos poucos: a luz do quarto se apagava e ele acendia a do corredor pra dar um clima, depois vinha andando devagarzinho…a história começava! Gestos, vozes inventadas e caretas imensas enquanto narrava as aventuras do Temível Capitão Pamonha [ele era o protagonista. E era mau! Muito mau!…]. Tudo ficava ainda mais emocionante quando surgia o vilão favorito da minha irmã mais nova, o Tiranossauro Rex e sua boca cheia de dentes que devorava os piratas Barba Ruiva, Barba Azul e Capitão Gancho.

Papai não sabe cozinhar, assim me tornei independente.

Sabe a tradicional macarronada de domingo? Sempre sobrava um pouquinho para o almoço do dia seguinte e era o Sr. Moreno que enfiava tudo numa panelinha para esquentar. Macarrão de panelinha, o pior e melhor de todos. Papai ouviu por anos o famoso grito “terminei!”, e lá ia ele limpar suas crias. Ele xingava no trânsito, dirigia rápido pelas quebradas da zona norte e eu adorava! Ele me salvou de um afogamento aos 8 anos e fez aulas de dança só para dançar comigo na formatura da escola. Para ele eu dediquei o meu primeiro pedaço de bolo aos 21 anos.

Hoje em dia, ele é todo descolado. Me apresentou um dos meus filmes favoritos, Piratas do Rock. Vira e mexe usa uma blusa roxa que eu comprei pra ele de aniversário ou uma camiseta dos Beatles lindíssima. Que pai você conhece que gosta das caipirinhas da filha, toma cerveja com ela e pára tudo o que estiver fazendo pra assistir Os Mercenários com ela além de adotar o melhor amigo da dita cuja como seu próprio filho?

Eu tenho todas esses momentos maravilhosos ao lado do meu pai e tenho certeza de ter a recordação mais forte de nossa relação muito bem guardada, e ela não era o sol que sempre batia no quarto dos meus pais pela manhã, as aventuras de piratas ou a cerveja que tomamos juntos, mas a lembrança de estar deitada no peito dele ainda bebê e lá estar em paz.