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Frida e eu

7 jul

Eu tinha 18 anos quando ouvi falar de Frida Kahlo pela primeira vez. Fiquei de imediato apaixonada por sua beleza e pela beleza de suas obras. 

Foi conhecendo Frida que eu mesma me descobri bela e intensa. E pude reconhecer em mim as qualidades existentes nas artes criadas por mulheres. 

Foi com Frida que me entendi artista. Foi com Frida que meu corpo reconheceu sua beleza. 

Frida é uma artista que usou seu corpo e sua alma ao extremo: transformou a dor e a vida em arte.

Sua transmutação é a minha. Seu espelho é meu. Sua arte é a própria vida. Sua vida sou eu. 

Patriarcado-Poder-Capitalismo

28 maio
É comum acreditar que o patriarcado atue somente sobre as mulheres, entretanto, ele rege toda a sociedade e toda forma de relação que existe nela, o que inclui os homens. Ainda que a sociedade patriarcal aja com crueldade ao moldar o homem, ela age de modo muito mais violento com a mulher, tornando a interação homem-mulher em qualquer instância um jogo de poder e opressão onde, invariavelmente, as mulheres perdem.
O patriarcado torna o homem um ser “incapaz” da compreensão e do respeito. Este cresce acreditando estar acima de valores que deveriam ser da humanidade e não apenas das mulheres. Ele ignora que pode calorosamente vivenciar seus sentimentos e expressá-los de maneira plena, transformando-o num ser amorfo, arrogante, individualista e frio.
Para a mulher, é necessário sempre estar à merce deste ser “sem alma” e encaixada dentro de um molde nunca feito para ela. Em nossa sociedade, apesar deste ser homem também se encontrar em molde “torto”, ainda é possível encontrar certo nível de conforto, em especial para o homem branco, que permanece numa posição imensamente mais favorável que a do homem negro ou indígena. Já para a mulher, este molde caminha, ao longo da história, marcado por constantes podas físicas, emocionais e mentais.
É fato que somos afetad@s por esse sistema há mais tempo do que podemos imaginar e, por mais que consigamos entender que isso é cruel a tod@s, as vítimas permanecem sendo as pessoas identificadas como mulheres.
Mais terrível ainda é saber que, mesmo sendo vítimas do patriarcado, existe ainda a apropriação desse sistema de opressão pelo capitalismo, que sempre massacrou os trabalhadores homens. O capitalismo, além de reforçar a ideia de superioridade do patriarcado, homem acima da mulher, ele coloca diversas mulheres acima de outras, como num ciclo “eterno” da demonstração de poder que pode ser observada de várias formas: homem-mulher, mulher-mulher, branc@s-não branc@s, mais ric@s-menos ric@s, pessoas cis-pessoas trans…
O poder do capital criou um ciclo dentro do ciclo. E agora é ele quem comanda. Quando duas forças opressivas se unem, nunca o resultado pode ser o melhor. Aliando um ao outro, patriarcado e capitalismo acabam, por fim, matando a todas nós e, posteriormente, todos eles.

Sobre a maternidade e a escolha

12 maio

*texto originalmente publicado na TV Lacuna

Dizem que a maternidade é algo incrível. Cresci ouvindo isso e aceitando este fato como parte do meu destino. De fato eu já desejei ardentemente ser mãe. Esse desejo hoje não é algo imposto a mim. Ele é uma escolha minha, que pode ou não ocorrer. Eu não sei se é realmente algo tão incrível como dizem, mas é uma ideia que eu fico feliz em aceitar caso faça parte dos meus sonhos futuros.

É “previsível” que este “tipo de sonho” se torne realidade. Tod@s esperam que eu o realize, afinal, sou mulher e isso é esperado pela sociedade. Eu não me pergunto o motivo dessa previsibilidade. Eu reconheço que a sociedade brasileira associe ser fêmea à maternidade, o que eu me pergunto é por quê o contrário também não é recebido com a mesma veemência.

Refletindo a respeito do caráter biológico de nossa espécie, não há motivos palpáveis para que a maternidade seja necessária ao ponto de sua negação causar o impacto que causa nas pessoas. É fato que estamos provocando o colapso de nosso planeta e, por consequência, ameaçamos a nossa existência. Entretanto, não somos uma espécie em extinção, não vamos desaparecer do planeta por falta de procriação e certamente não precisamos praticar a reprodução compulsória. Temos um desafio mundial para permitir a nossa continuidade na Terra e tenho plena consciência de que o planeta ainda não está perdido. Dito isso, vamos então refletir sobre outros aspectos da maternidade “obrigatória”.

No Brasil não existe uma lei que nos imponha a maternidade. Existe, porém, uma que não permite a interrupção da gestação pela livre escolha da mulher exceto em alguns casos (já ameaçados pela não-justiça que temos). Contudo, não é apenas a lei escrita e registrada que nos rege. Por trás de uma sociedade existe uma história alinhavada aos costumes que a constroem. Não podemos ignorar que a fundação de nosso país está calcada na invasão de um povo conservador católico que, mesmo com a soberania brasileira já conquistada, ainda domina o pensar e agir de nosso povo. É nesta origem religiosa do educar e do pensar que se sustenta a resistência à escolha pela não maternidade. Podemos até contra-argumentar dizendo que o Brasil é um país laico e que Igreja Católica não nos controla mais. De fato não o faz, mas os princípios cristãos tão fortes e numerosos ainda fazem parte do nosso vocabulário e de nossos atos. Essa é uma breve lembrança histórica sobre como a forte presença dos ensinamentos ligados à religião faz parte da construção do pensar. Parte dessa construção social fundamentada na teologia judaico-cristã conta a história de mulheres unicamente ligadas à construção da família (marido e filhos) ou à ruptura mesma. Essa história contada por mais de cinco mil anos tem um peso e uma força de um homem soberano e dono de sua família. Um homem que decide que caminho tomar fazendo a mulher, uma continuação de sua propriedade, segui-lo em sua jornada.

Acredito que não seja necessário discorrer sobre como a influência da Igreja Católica foi essencial para a construção de um homem que, já liberto da relação política entre Igreja e Estado, carrega consigo a imagem do homem dono, cabeça da família e da propriedade, e que tem o poder da palavra, do voto e da lei. A isso damos o nome de machismo. Porque obviamente não podemos dar o nome de igualdade. Seguem assim leis e julgamentos morais que tomam como parâmetro este homem da Bíblia. Um homem “à imagem e semelhança de Deus”, ou seja, um grande criador também homem. Certamente para a mulher sobra muito pouco.

Sendo a mulher este ser subserviente ao homem, que com sua ânsia de dar continuidade ao seu nome e à sua propriedade privada, necessita da instituição familiar para tal, fica evidente que para a mulher resta a maternidade como “papel fundamental” do funcionamento desta instituição. São muitos anos desses ensinamentos e deste reconhecimento. Assim, não podemos esperar que, apesar das mudanças significativas na política nacional e dos processos de empoderamento da mulher, tudo esteja resolvido e que seja fácil chegar e dizer: eu mulher não quero ser mãe e isso soar tão aceitável quanto o homem que diz que não quer ser pai.

Esta não é uma discussão comparativa de direitos. Essa é obviamente uma discussão em que a mulher não está equiparada ao homem em sua autonomia. Autonomia aqui significa aceitar a escolha humana e não ter de convencer ninguém dessa decisão.

Este, sem dúvida, é um dos textos mais difíceis que eu já escrevi até agora. Porque, honestamente, quando uma mulher diz não a qualquer coisa, deveria existir após este não apenas um ponto final e não uma série de tabus e discursos moralistas e privados para provar que esta está errada. A felicidade e plenitude da mulher não está ligada à maternidade, família, casamento ou algo assim. A felicidade está ligada à possibilidade de uma vida plena de direitos e de conquistas. A uma vida de respeito e de representatividade, de equilíbrio social e individual.

Para uma mulher que não anseia a maternidade em nenhuma de suas configurações, não deveria existir a estranheza, e sim a mesma acolhida de uma que anseia. A negativa em aceitar a escolha pela não maternidade está diretamente ligada à resistência cultural ao não que nos é direito, mas que não nos é respeitado.

Não somos reprodutoras. Não estamos exagerando e nem precisamos encontrar a pessoa certa pra perceber que estamos erradas. Somos mulheres em busca de equidade. Ser fêmea não implica em ser mãe. Assim como não ser fêmea ou não ser pessoa binária não implica que não sejamos mães. Não somos obrigadas a repetir padrão algum que tentam nos impor nos discursos do que é “natural”. Não aceitamos mais que nossa escolha seja um incômodo. Não aceitamos brincar de casinha. Não aceitamos que nos digam a que devem servir nossos corpos.

Gosto de pensar que o querer ainda será poder. Que em algum momento da história não será mais necessário ter de convencer ninguém que a maternidade é uma escolha e não um dogma. É uma condição que diz respeito exclusivamente à mulher, tendo ela já parido, adotado ou não. Nosso único papel social a cumprir é o de viver plenamente nos respeitando e respeitando as outras pessoas, como deveria ser o papel social de qualquer outr@. A função da mulher é apenas ser. Sem complementos, sem adjetivos ou funções adjacentes.

Este não deveria ser um “textão”. Aliás, nem deveria ser mais uma discussão. O assunto deveria acabar imediatamente após a frase “não quero ser mãe”. Mas nada relacionado ao empoderamento da mulher é fácil assim. É um pouco mais fácil quando se tem dinheiro para realizar um aborto seguro ou se tem apoio para enfrentar o machismo e a violência doméstica, quando se consegue barrar a cultura do estupro (alguém aí já conseguiu?…)

À mulher não foi dada a voz. Tudo lhe foi tirado e ainda é sob o disfarce dos homens de bem tão preocupados com nossas vidas. Ainda assim, vozes se erguem e vozes devem se calar para que a mulher possa falar.

Não somos animais nascidas em cativeiro, todavia ainda não somos totalmente livres. Enquanto nossas escolhas forem pautadas (e permitidas) a partir de instituições públicas ou privadas comandadas por homens (e portanto machistas), estaremos apenas pairando pelo conceito de liberdade. Enquanto nossas escolhas forem recebidas com ressalvas e recusas baseadas na moralidade, não teremos alcançado a autonomia que etiqueta a “boa vontade” masculina. Enquanto a todas as mulheres que não desejam ser mães, não for dado o mesmo respeito e aceitação que eu tenho por querer ser, nenhuma mulher será plenamente mulher, ou seja, ser human@ em todos os seus direitos.

A difícil arte de ser original

17 jun

Tem gente me perguntando quando vou publicar texto novo e vou te contar, tá difícil. Estou na fase final da pós graduação em Arte-Terapia. Aquele momento tão temível que se chama monografia e que te suga todas as ideias que você nem tem pra ela quanto mais pra outros textos. Parece que, de repente, a gente não tem nada pra falar [quando na verdade tem tudo]. Então vou contar um pouquinho disso pra vocês.

A gente tem sono. Muito sono. Mas não pode dormir tudo o que quer porque aí vem a culpa de ter dormido tanto. Porque tem três livros pra ler e uns outros três pra terminar. A gente perde a fome, a tranquilidade, a paciência, os encontros com amigues.

A gente quer ter ideias originais ao mesmo tempo que não pode esquecer de citar as inspirações e as ideias dessas inspirações. A gente quer entregar um trabalho digno, cheio de novas colocações e muito revolucionário. Mas a verdade é que tudo que a gente quer é poder fazer isso com o coração e não com o academiquês.

Eu não sei escrever em academiquês. Por anos senti que a universidade não era o meu lugar. Nós não conversávamos muito, sabe? Eu entendia pouco ou nada do que era falado pela maioria d@s professor@s ao mesmo tempo que guardo muitas falas de muit@s na memória, no coração. Eu me comparava o tempo inteiro com aquel@s coleguinhas super eloquentes e chei@s de referências. Eu me perco na gramática, me atrapalho toda nas ideias e até crio palavras pra explicar o que sinto. Eu não entendia que podia participar da conversa da minha forma. Eu tinha medo de errar, de ser burra, de falar merda. Acho que eu ainda tenho. Mas e aí? Tem a monografia pra entregar. Como faz com esse medo? A gente vai com medo mesmo.

Das coisas mais lindas que aprendi nos últimos tempos é que existe lugar pro coração na universidade. Sim, precisa também melhorar a fluência em academiquês, contudo [e honestamente] não é o principal. Não precisa ser original. Ninguém é. Precisa olhar e inspirar o tema. Fazer sentido pra ele como ele faz pra gente. E daí deixar o coração falar. Ele vai saber o que é seu e o que não é. Ele vai saber ser respeitoso com quem nos antecedeu no assunto. Ele vai se desesperar com a chegada do prazo final e também vai te dizer que você está fazendo um bom trabalho. Ele vai ser tudo o que você precisar nessa hora.

Meu coração está com medo, pois está sedento por mudanças, revoluções e muitas ideias originais. Ele sabe da importância deste momento e por isso quer fazer o seu melhor. E ele também sabe que nenhuma pesquisa é perfeita ou está concluída. Ele sabe que uma pesquisa que vem da nossa vivência é um projeto de vida. “Tudo bem ter medo.” – ele me diz – “Você já original pelo simples fato de ser você e de se ver nesta pesquisa. De ter a coragem de falar com amor e um pouquinho de academiquês. Estamos junt@s.”

Daí você faz esta pausa tão necessária só pra depois dizer “acho que estou atrasada”. Será que estou? Será que uma pesquisa que fala da nossa alma pode estar errada ou atrasada? Será que ela é original? Será que eu sou original? Isso importa? Talvez. Então bora terminar esse troço e continuar logo depois.

36 maneiras de ser contra a cultura do estupro

27 maio

Recentemente me perguntaram o motivo de só escrever sobre mulheres e nunca sobre homens. Bem, primeiro, eu não escrevo só sobre mulheres, eu escrevo sobre o que eu quiser ou sobre o que me pedirem pra escrever. Em segundo lugar, eu sou mulher e escrevo. Portanto, eu escrevo sobre mulheres. Eu o faço por gostar, pelo empoderamento, pela arte, pela produção feminina e sua valorização.

Estamos em 2016 e muita coisa já deveria ter mudado no que diz respeito às mulheres. E não é individualmente delas que eu estou falando. É de tudo que está relacionado a ser mulher. Então eu também escrevo sobre isso porque é necessário.

Escrevo sobre mulheres pois ainda hoje não somos respeitadas, não temos os mesmo salários que os homens e ainda não temos direito pleno ao nosso corpo. Isso vai desde o simples fato de não poder menstruar em paz (no caso das mulheres cis), até o policiamento das palavras que usamos, roupas que vestimos, estilo dos nossos cabelos, dos pelos no corpo. Vai do direito de escolhermos ser mães ou não ao direito à segurança. Somos seres sociais com menos direitos sociais. Coisa que muita gente ainda não percebeu ou aceitou. E esse “muita gente” é você, homem. Então hoje, o meu texto é para vocês.

No Brasil, ser mulher ainda significa ser inferior. Ser mulher negra ou trans significa menos ainda. Já ser homem significa ter todos os direitos possíveis se você for branco e cis. Inclusive ter o direito de nos estuprar. Sim. Você homem tem esse direito e sabe por quê? Porque você nunca é o culpado. É sempre a nossa roupa, o nosso comportamento ou local onde estamos. E nem adianta vir com aquele argumento “nem todos os homens”.

nao estupre

Vocês homens possuem todo o sistema a favor de vocês. Todos saem rapidamente em defesa dos homens ao mesmo tempo que nos culpam por seus atos e descontroles. São vocês que dizem que exageramos, que demos o sinal errado, que estávamos pedindo. São vocês que estupram uma mulher a cada 12 minutos, sendo a maioria negra, vítimas do racismo sistematizado. Portanto, sim, todos os homens podem ser estupradores em potencial. Mas você não quer ser isso, quer? Você quer estar ao nosso lado dizendo que também não concorda com isso, não é mesmo? Pois então, aqui fica um manual simples de ações e lições de como ser contra a cultura do estupro na prática:

  1. Não estupre
  2. Impeça estupros
  3. Denuncie estupros
  4. Repudie piadas machistas
  5. Diga aos seus amigos que a forma como eles tratam mulheres é errada
  6. Não apoie ou incentive seu amigo a beijar uma mulher a força
  7. Não divulgue fotos de mulheres nuas ou seminuas. Quando isso acontecer, denuncie
  8. Não fique em silêncio ao ver uma mulher numa situação violenta
  9. Tente lembrar quantas vezes você transou com uma mulher bêbada, pode ter sido um estupro
  10. Não significa não
  11. Assistir a uma cena de violência contra a mulher e não fazer nada faz de você um cúmplice, não um “brother”
  12. Acredite na mulher quando ela disser que você está sendo machista. Fique em silêncio, a escute e reflita
  13. Se coloque no lugar da mulher e se pergunte se gostaria de estar nessa posição
  14. Ao pedir desculpas por uma ação machista, não a repita nunca mais. Caso contrário, suas desculpas não servem de nada
  15. Lembre-se: NINGUÉM MERECE SER ESTUPRAD@
  16. Denuncie a violência contra a mulher
  17. Nunca culpe a vítima. NUNCA! Entendeu?
  18. Não fique falando por aí como você é diferente de um agressor. Apenas não seja um. Suas ações dizem muito mais sobre você do que seu discurso
  19. Não finja que você nunca forçou a barra
  20. Se você cometeu um erro, assuma a responsabilidade por ele
  21. Lembre-se: você não merece confete por uma atitude não machista
  22. Nunca, em contexto algum, use argumentos biologizantes como “homens são assim mesmo” para justificar um comportamento violento ou abusivo, mas saiba que esse comportamento tem origem na maneira como homens são educados e que, portanto, é cultural
  23. Lembre-se: estupro não é sexo
  24. Em briga de marido e mulher se mete a colher sim! Não se omita em casos de violência doméstica
  25. Conscientize seus amigos e familiares sobre o estupro
  26. Não compactue com pessoas, causas ou mídias que façam apologia ao estupro ou o romantizem
  27. Não suavize os danos emocionais, físicos e psíquicos de um estupro
  28. Também fazem parte da cultura do estupro: assédio moral e sexual; piadas, gírias e expressões machistas; cantadas de rua
  29. Aceite que mulheres têm o direito de estar com raiva dos homens. Elas têm
  30. Não são as mulheres que precisam se dar ao respeito. É você que precisa respeitá-las
  31. O estupro não é menos violento por ter “apenas” um agressor. Estupro é inaceitável em todos os contextos
  32. Não ridicularize ou suavize o estupro com piadas ou comentários condescendentes
  33. Não se acomode achando que “é assim que as coisas são”. Não. É assim que as coisas estão. Você pode mudá-las
  34. O estupro não é um comportamento natural
  35. Lembre que você faz parte do “coletivo” homens e que este é um coletivo opressor
  36. Estupro é crime

Esses e outros lembretes lhe serão dados sempre. Não os ignore. Não os esqueça. Não deixe sua manifestação contra a cultura do estupro apenas no seu discurso. Se você realmente quer mudar isso, aja como um homem contra o estupro.

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imagem símbolo do feminismo negro. mulheres negras são as que mais sofrem com a violência contra a mulher. na maioria dos casos, simplesmente por ser negra. diga não ao racismo e à violência contra a mulher

 

Links que você precisa conhecer:
Ligue 180 para denunciar a violência contra a mulher
Mapa da violência

Uma mulher contra o golpe

19 abr

Daí teve o primeiro golpe. Chame como quiser. É um país livre (é? bom, por enquanto parece). Eu vou chamar de golpe. Passada a votação, estava eu largada na cama tentando dormir e uma coisa não me saía da cabeça: como as mulheres escreveriam essa parte da história. Bem, aqui estou eu respondendo à minha própria pergunta e fazendo a minha parte. Não quero fazer um texto sobre mulheres na política ou mulheres que escrevem sobre isso… Eu só quero escrever e deixar um pouco desse nojo sair.

Das poucas deputadas que temos, todas foram assediadas de uma ou outra forma. Teve gritos de “linda” (ó… que bonitinho da parte deles… ahan), teve vaia pra licença maternidade (oi? sim! teve!), teve mulher se exaltando e sendo chamada de forte (mas todo mundo viu seu sorrisinho nojento, tá?), teve mulher guerreira sendo chamada de histérica (nenhuma novidade. qualquer mulher que ouse levantar a voz pra se defender é “a louca do rolê”) e teve a mulher que sofreu o golpe. Golpe bem baixo. Bem sujo. Uma daquelas coisas que a gente espera não ver de novo.

A gente foi pra rua. Pediu. Implorou. Conversou. Gritou. Mas não teve jeito. Quando se quer o poder, não importa em que você vai pisar. E pisar numa mulher ainda é mais fácil. Sempre tem um monte de homem pra ajudar. Já homem denunciado é pra botar no alto! “Salvador! Cunha herói!”…
Façam-me o favor…

Mulheres contra o golpe - 05/04/2016

Mulheres contra o golpe – 05/04/2016

Teve gente mandando beijo, abraço, louvando, roubando, repetindo, repetindo, repetindo… Mas o que não me desceu de jeito nenhum foi a porcaria do cartazinho escrito “tchau, querida!”… Aquilo me deixou do avesso. Queria pegar aquele cartazinho e fazer cada deputadozinho o engolir todo picadinho. Pedacinho por pedacinho. Ai teve o absurdo e o meu sangue ferveu.

Como é que em pleno 2016 chega um sujeito e acha que exaltar torturador é legal? E pior! Ainda é permitido! Ninguém fala nada! Ninguém processa o homem! Tá lá, livre, cínico e feliz sendo deputado! Dedicar o voto a um ser que enfiou ratos em vaginas de mulheres vivas e conscientes e não acontece nada?! RATOS EM VAGINAS!!! É de vomitar. Pra dizer o mínimo. Por que você não fala logo a verdade, você e seus comparsas? Falem logo que é porque é mulher! Falem!

Pausa pra respiração.

Daí teve o momento “fazer a limpeza no facebook”. E teve um primo defendendo o sujeito Bolsonazi me comparando a estuprador. Sim, teve. Pra dizer o que eu acho bem sinceramente, ele é burro. Simples assim. Porque quem não sabe que gay, lésbica e bissexual não é igual a estuprador, é burro. Tchau. Terminamos. Não te amo mais. E nem doeu. E teve aquele amigo antigo que já tinha se transformado na própria sombra. Não é surpresa ele apoiar Bolsonazi. Mas é lembrar que ele dormiu na mesma cama que eu. Ele dividiu comigo sorrisos, lágrimas e intimidades. Sim, dividiu. E ele… bem… ele doeu. Dor. Sentimento de golpe.

Tem uma coisa que descobri quando a gente briga com amig@s… Às vezes a gente não gosta del@s e ainda assim gosta. Confuso. Difícil. Real. Então, pra entender isso, criei uma expressão um tempo atrás e ela diz assim: te amo pra sempre, mas te odeio agora.

Acho que é isso que aconteceu de ontem pra hoje. O “te odeio agora” fez meu sangue subir e querer quebrar tudo. São pessoas dizendo barbaridades. Não seres inventados, monstros fictícios. Não! São pessoas desejando a morte, o horror, a tortura. São pessoas passando por cima de pessoas. Pessoas fingindo que são honestas e boa parte acredita. E então, o golpe. Nada disso é novidade, mas pela deusa… Tá de foder.

Eu não vou fazer uma análise histórica do golpe. Vou aqui falar como sempre falo, sentindo. Eu te odeio agora. Odeio você que levantou o cartaz “tchau, querida!”, você que louvou torturador, você que curte o Bolsonazi, você que disse que ia votar contra e votou a favor, você que acha que mulher não deve estar na política, que o problema é a presidenta ser mulher, você que é cego o suficiente pra achar que a corrupção é invenção do PT e que antes estava melhor, você que gritou “Dilma, filha da puta”. Eu não sei se consigo te amar de novo. Porque isso que você fez foi baixo. Foi sujo. Foi nojento. Foi machista.

Mas eu sou mais forte que você. Mais forte que o seu ódio. Mais forte que o meu ódio, porque ele vai passar. Ele não vai me alimentar como alimentou você. Eu sou mulher, escrevendo sobre o golpe, sou guerreira e vou gritar, vou lutar, vou responder, vou protestar. Somos muitas e você não vai nos derrubar.

mulher-contra-o-golpe

 

Pela saída de Eduardo Cunha – clique aqui
Para denunciar Jair Bolsonaro – clique aqui

 

O silêncio da luta

8 mar

Hoje eu acordei com uma vontade tremenda de ficar em silêncio. Deve ser o hábito. Mulher sofre em silêncio. Demonstrar emoções não é uma coisa muito bem vista. A gente sempre chora em silêncio, pra ninguém achar que somos fracas.

A gente faz aborto em silêncio. Ninguém pode saber, é crime. Melhor guardar segredo e aguentar sozinha, pois filhx a gente faz sozinha.

A gente come em silêncio. Assim ninguém olha feio. A gente se acha bonita em silêncio. Se gostar é coisa de mulher “à toa”. A gente também não escolhe o vinho no restaurante, nem paga a conta. Isso é coisa do cavalheiro. Por que uma mulher faria isso? Não é ela que paga as contas.

A gente se corta e vomita em silêncio. Sente nojo do próprio corpo. A gente se sente sempre sozinha, então fica em silêncio. Mulher ora em silêncio porque tem que orar pra deus, a Deusa não existe mais nesse mundo. Também a colocaram em silêncio.

Toda mulher cria xs filhxs em silêncio, afinal o homem está cansado e já foi dormir. Mulher tem que parir em silêncio. Onde já se viu ficar berrando pra parir? Nem gritou na hora de fazer…

A gente é estuprada em silêncio e mesmo quando grita, ninguém ouve. Então a gente apanha e é abusada em silêncio. Quem vai acreditar na mulher nessas horas? Melhor ficar quieta. Por isso a gente morre em silêncio. Quase ninguém se importa se mais uma mulher for assassinada.

ilustração de Raquel Thomé

ilustração de Raquel Thomé

A gente não bebe, não fuma, não goza e não transa quando quer. É mulher “da vida” que faz isso. Mulher boa é a que fica em silêncio. Que não luta, não briga, não sonha, não constrói. Ficar em silêncio não é uma escolha, é uma obrigação.

Eu não quero comemorar hoje. Comemorar o quê? Meu salário mais baixo se sou branca e mais baixo ainda se sou negra? O meu medo de sair na rua? O aborto que eu vou chorar sozinha? O desprezo de quem me manda “me dar o respeito”?

Talvez eu tenha mesmo de ficar em silêncio hoje. Hoje eu estou de luto. De luto por todas as mulheres assassinadas por serem mulheres. Por todas as mulheres que morrem ao realizar um aborto ilegal. Por todas as meninas que perdem sua infância pra corrida pela sexualização imposta pela indústria da beleza. Por todas as mulheres gordas que perdem sua alegria e sua vida pras dietas, cirurgias e remédios pra emagrecer. Por todas as travestis e mulheres trans obrigadas a se prostituir e que morrem antes dos 30 anos. Por todas as mulheres negras sexualizadas ao extremo desde a infância. Por todas as empregadas domésticas que perdem a vida de xs filhxs pra criar x dxs outrxs. Por todas as lésbicas e bissexuais que são impedidas de ter sua família. Por todas as meninas não estimuladas na escola. Por todas que não conseguem frequentar a escola. Por todas as mulheres negras que sofrem com o racismo desde pequenas e isso nunca para!

Hoje eu estou de luto pelos gritos que não dei até agora. Pelo medo que sinto de ser assediada de novo. Pelo não direito ao meu corpo. Pelo desprezo que recebo quando digo que sou feminista e que escrevo sobre a mulher. Pelo sarcasmo que recebo quando digo que mulheres não têm os mesmos direitos que os homens. Pela categorização do que é de homem e o que é de mulher. Pelos trabalhos que não consegui e pelo que me restou por ser mulher. Pelos orgasmos que fingi ter e pela dor que eu escondi sentir. Pelas mentiras que contei pra me proteger.

ilustração de Tainá Ceccato

ilustração de Tainá Ceccato

Hoje eu estou de luto pelo silêncio imposto às mulheres pelo governo, pela mídia, pela família, pelas igrejas, pela violência, pelo medo, pela raiva, pelo mercado de trabalho, pela indústria da beleza, pela moda, pelos “costumes”, pela lei, pelo desprezo.

Chega de silêncio. De luto. Na luta. Ninguém nos cala mais.