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hoje

16 maio

aquela ansiedade

o coração dispara

as mãos ficam inquietas

é difícil atingir a concentração

o mundo gira

realinha

volta ao seu lugar

outro mundo se aproxima

é hora de voltar

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Vomitando o sapo

11 abr

Querido diário não tão diário.

Hoje, descobri que um velho conhecido [ex-namorado e quase amigo] me excluiu do Facebook. Você deve estar pensando “tá, e daí?”. E daí que, ao perceber que estamos definitivamente [que seja eterno enquanto dure] fora um da vida do outro, eu pensei “OK. Por mim, beleza!”. Mas não é bem por aí, eu fiquei um pouco melancólica. É uma pena, pois gostaria de tê-lo como amigo. O motivo dessa nova separação: ideologia. Ele tem as convicções dele e eu as minhas. Ele é católico e eu não. Ele é hétero e eu sou quase isso. Você deve estar se perguntando porque eu vou falar nisso novamente, certo? Certo! Só que não.

Não somos obrigados a seguir ninguém nem a aturar a chatice alheia. Neste caso, minha atual postura social e política. Tenho me colocado abertamente contra todos aqueles que não aceitam a homossexualidade e acho que algumas pessoas não aceitaram isso muito bem. Ou se ofenderam pela minha veemente crítica ao fundamentalismo aplicado, ao meu ver, de forma equivocada aos valores libertadores cristãos. Você pode acreditar no D(d)eus(s) que quiser, mas quando um judeu fala que você deve amar seus inimigos, fazer bem a quem te odeia e orar por quem te persegue indo contra tudo o que era pregado na época e não acha isso libertador, você pode ter um problema de entendimento humano.

Eu sou gay. Quando eu quero, fico com mulheres.
Eu sou hétero. Quando quero, fico com homens.
Eu sou livre. Quando amo, fico com quem quiser.

Eu sou hétero. Mas isso não quer dizer que eu não fique com mulheres. Isso te incomoda? Tudo bem. Não se preocupe, não vou atirar pedras em você. Você não precisa conviver comigo se não quiser. Eu sou adulta e consigo entender isso. Eu também não preciso conviver com você. Cada um segue o seu caminho sem medo, sem culpa e sem rancor. Pode ser? Oba! Que bom que nos entendemos. Espera, nós nos entendemos? Como vamos saber? Se você foi para um lado e eu para o outro?

Tudo o que eu disse acima é uma grande mentira.
Ou será verdade? 
Faz diferença?
Não sei.

Sabe o que eu sei? Nada! Eu não sei absolutamente nada! Eu sigo. Eu tropeço, eu caio, eu levanto. Alguém tropeça, eu ignoro, eu passo por cima. Alguém cai, eu ignoro, eu volto atrás, eu ajudo essa pessoa a levantar. O que eu sei realmente? Você sabe? Cri, cri…
Pois é.

por uma humanidade para todos os humanos
por todos humanos com senso de humanidade

E assim eu vou lutar, sonhar, viver e vencer.
Prometo!

amor + amor = amor

27 mar

Meus pais são católicos desde sempre. Frequentaram a Igreja e cumpriram todos os sacramentos exigidos por ela: batismo, primeira comunhão, crisma, casamento. Eu e minha irmã fomos criadas dentro da mesma instituição. Cumpri quase todos os sacramentos, exceto o casamento. Um belo dia, decidi sair. Percebi que as palavras ditas nas missas e nas reuniões de jovens não me satisfaziam mais. Elas não falavam ao meu coração como antes. Eu parti para uma terra distante, um mundo sem Igrejas.

liberdade

Tradicionalmente rebelde, critiquei todos os tipos de instituições religiosas na adolescência. Aos 16 anos, eu não passava mais os domingos na Igreja, eu fazia teatro! A minha nova religião tinha um novo altar, o palco.

No meu último ano de colégio, a diretora do Curso Livre de Teatro que eu fazia e com quem trabalho até hoje, informou à turma que montaríamos um grande sucesso dos anos 70, uma adaptação livre da ópera rock “Jesus Cristo Superstar”, de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice. Ironias à parte, eu ia contra todos os cristãos, mas contaria a história da Semana Santa e, claro, falaria de Jesus. E eu tinha de fazer isso direito! Sem preconceitos. Após alguns anos em cartaz na Páscoa, me vi novamente uma cristã. Agora sem religião, entretanto amando e tentando viver livremente os ensinamentos de Jesus.

Não vou mentir pra vocês e dizer que meus pais aceitaram facilmente a minha nova postura não religiosa. No começo, discutimos muito. Mas meu pai, um homem sempre a favor da liberdade, disse que eu e minha irmã tínhamos o direito de escolher nosso próprio caminho. Ele nos disse que já tinha nos ensinado tudo o que acreditava sobre religião e a partir daí a escolha era nossa. Não lembro se as brigas acabaram rapidamente, mas pelo menos eu tinha apoio e autonomia.

No Brasil, nem todos têm a mesma generosidade dos meus pais. Eu sonho ter. Espero educar meus filhos de forma liberal e quando for necessário, fazer como o meu pai: libertá-los das minhas escolhas e deixar que eles façam as deles. Acredito que é assim que um verdadeiro pai educa, que um verdadeiro líder se faz presente.

freedom

Eu tenho muito orgulho de ter uma mãe e um pai que lutam ao meu lado pelos direitos de todos os brasileiros. Eles são católicos e levantam comigo a única bandeira que eu ouso levantar. Em casa eu aprendi que somos todos somos iguais e merecemos os mesmos direitos.

A bola é de todo mundo

20 mar

Nas últimas semanas, tenho refletido profundamente sobre aquilo que digo e acredito. Acho um excelente exercício de consciência. Dados os últimos acontecimentos religiosos [a renúncia de Bento XVI, a eleição do Pastor Marco Feliciano para a presidência da CDMH, a escolha do novo papa], todos temos tomados partido em relação àquilo que é noticiado e eu fico muito feliz que isso aconteça.

A humanidade alcançou avanços maravilhosos no que diz a respeito à si mesma e aos direitos humanos, entretanto temos nos tornado cada vez mais intolerantes ao discurso alheio. Utilizei o advérbio ‘entretanto’ porque nem sempre isso tem se mostrado um ponto positivo nas discussões sociais.

Quando olho no espelho, me pergunto: é isso mesmo que você quer ser? Essa pessoa tão defensiva? Não era para eu ter me tornado mais amorosa com o passar dos anos? Não vejo a intolerância de forma negativa. Ela nos serve de forma esclarecedora nos momentos de decisão. Nem sempre devemos tolerar o que é proposto pelo outro. Considerando que vivemos num país onde a liberdade de expressão possui respaldo legal, vale a pena questionar: terá a intolerância se tornado nossa aliada ou nosso pior vício?

Quando eu era criança, minha mãe me ensinou que o meu direito termina onde começa o do outro. Isso significa respeitar. E respeito não é exatamente o que temos visto no Brasil. O comentário de uma amiga quanto à escolha do papa Francisco I cutucou dentro de mim coisas que busco entender desde que sou adolescente: como respeitar as pessoas e exprimir minhas opiniões ao mesmo tempo?

Líderes políticos e religiosos sempre utilizarão de suas regras para nos dizer aquilo que é certo. Não somos livres também para negá-las? Estes líderes têm nas mãos duas ferramentas muito preciosas: palavras e livros. As normas de conduta de uma sociedade se encontram na sua constituição, nos manuais, nas bíblias, nos códigos e em inúmeros outros tipos de livros. Nas palavras dos homens estão as interpretações dessas regras. No percorrer da história, muitos livros foram [e ainda serão] questionados e colocados em desuso. Novas visões sempre serão necessárias para que possamos atingir nossos ideais. Se levássemos tão a sério antigos livros científicos, não estaríamos ainda acreditando que a Terra é plana?

Quando um representante de Deus prega em Seu nome, ele está repetindo e, ao mesmo tempo, reinterpretando muitos ensinamentos antigos. Assim como o homem e a ciência evoluíram e evoluem a cada dia, estes ensinamentos deveriam evoluir com eles. Acreditar e pregar aquilo que está escrito sem considerar a evolução humana é o mesmo que fechar os olhos para si mesmo. A partir da fé e das regras de um homem e sua instituição representante é possível educar, doutrinar ou retroceder. Aquele que permanece parado anda tão pra frente quanto aquele que dá as costas para o seu caminho.

Sobre a CDMH, já proferi minhas palavras e elas permanecem as mesmas. A prática da homofobia é condenada por muitos [e por mim] e é muitas vezes mascarada pela liberdade de expressão. Nós realmente sabemos o que é isso? Eu duvido muito. A verdadeira liberdade não é aquela onde quem é diferente de mim pode expor suas ideias sem que isso me ofenda? E outra coisa, desde quando ser chamado de gay é ofensa? Se você utiliza o termo gay para ofender alguém, meu caro, você está praticando homofobia. Até onde eu sei, a palavra gay é tão palavrão quanto a palavra faca.

Seguindo este meu raciocínio de liberdade, devemos questionar aqueles que se utilizam da fé para regerem suas vidas? Sim! Sempre devemos questionar se aceitamos ou não a religião e se isso nos serve como verdade da mesma forma que devemos ouvir as respostas que nos são ofertadas. Num país onde se é livre para ter a crença que quisermos também somos livres para pregar em nome dela. Contudo, não podemos jamais sobrepor determinada religião ao interesse individual que habita o coletivo.

Dentro desta nação, somos homens e mulheres com desejos, medos e interesses muitas vezes opostos, mas uma coisa é única: aqui somos donos de nossas escolhas e responsáveis por elas. Não podemos permitir que nos tornemos inquisidores daqueles que condenamos. Muito menos deixar que eles se tornem ditadores de uma moral particular.

Encerrando este breve manifesto, rogo a todos que: por favor, mantenham a sua fé, sua crença! Preguem sim em nome do que vocês acreditam. É seu direito! Mas não peça aos que não compartilham desses valores que abaixem suas cabeças e digam amém. As regras são suas, mas quem tem de querê-las sou eu e não o contrário.

Não concordo com uma só palavra do que dizes

7 mar

Tinha prometido a mim mesma que não publicaria mais nada aqui relacionado ao caso Direitos Humanos. Não dá! Estou revoltada e enojada!

Terça-feira, comentei com um grande amigo o quanto me senti violentada pela nomeação do tal pastor para o cargo de presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias. A escolha desse infeliz é dos maiores retrocessos da nossa lamentável política. Independente do presidente escolhido, só o fato do PSC assumir a CDHM é um absurdo em si. Mas “tudo bem”. O PSC é um partido como outro qualquer que está lá para representar aqueles que acreditam nele. Então, Marília, qual é o seu problema?

Eu vou te contar qual é o meu problema, vamos começar assim: não levanto bandeiras. Não sou ativista. Não sou de direita e não sou de esquerda, não sou feminista e não tenho religião. Defendo uma única causa: o direito e o dever de respeitar a tudo e a todos por suas escolhas. E isto inclui o pastor e seu partido.

Nós, seres humanos, falhamos. Eu falhei muitas vezes nesse discurso de liberdade como tantos outros falharam. Aqueles que nos representam também falharão, pois também são seres humanos. Bonito, né? Parece. Só que as coisas não são assim tão tranquilas. Aliás, li uma coisa nada tranquila na página Mistura Urbana, quer ver?

“A podridão dos sentimentos dos homoafetivos leva ao ódio, ao crime, à rejeição”

Que tal o comentário acima, hein? Tão fácil de engolir quanto um porco-espinho. A pessoa responsável por esta frase costuma dizer que nós [os que são contra ele] o entendemos de forma errada. Você sabe o que é erro? Vou exemplificar:

“Índio nasce índio, não tem como mudar. Negro nasce negro, não tem como mudar. Mas quem nasce homossexual pode mudar. Até a palavra ‘homossexual’ deveria ser abolida do dicionário, já que se nasce homem ou mulher.”

Entendeu? Essa belezura de afirmação foi citada no blog do Sakamoto. O autor assumiu a presidência da CDHM, sabia? Clari que sabia! Está em todos os jornais, páginas, noticiários, igrejas… Acho que me perdi no meio de tantas palavras bonitas. Onde eu estava mesmo? Ah, sim, no meu problema.

Alguma vez você já beijou a boca de uma pessoa do mesmo sexo e ouviu essa mesma pessoa ou outra dizer em alto e bom tom que aquilo era nojento? Eu, já. Alguma vez você foi ridicularizado porque você é gordo? Eu, já. Alguma vez aquela parte da sua família que sempre declarou que sempre te apoiaria em qualquer decisão desrespeitou efusivamente a sua escolha religiosa? A minha, já. Alguma vez a escolha da sua profissão foi motivo de piada? A minha, já. Alguma vez você foi agredido verbalmente no ponto de ônibus por causa da sua tatuagem? Eu, já.

“Eu já” muito mais coisas do que eu gostaria. E você também, caro leitor. Tenho certeza que em algum momento da sua vida, você se sentiu como eu, desrespeitado. Doloroso,  não é? Pois bem. Agora tire uns minutos para pensar: como será que os defensores das minorias se sentem? Como se sente a pessoa impedida de casar com quem ama? E as pessoas vistas como monstros por causa de sua fé e da forma como acreditam em Deus? Como se sentem os que não têm os mesmos direitos do resto da população e paga os mesmos impostos, vota nas mesmas eleições, trabalha todos os dias… Como eles se sentem? Me diga, por favor.

A escolha deste ser para representar as pessoas que lutam por seus direitos, é um crime atroz! Baixo e sujo! Estou triste como há muito tempo não ficava. Por favor, não sinta pena de mim. Não sinta pena de ninguém, apenas reflita: que direitos essa Comissão vai defender a partir de agora? Os meus é que não, isso eu garanto.

O Brasil é uma grande mistura de povos, culturas e crenças. Por que uns podem ter direitos e outros não? Que espécie de política é essa que não aceita representar a todos? Eu não voto, nem nunca votarei numa pessoa que utilize da política para criar templos de religião alguma! Essa é uma escolha minha e eu a defenderei até o fim. Qual a sua?

Para alguém que se intitula “um homem de Deus” , este senhorzinho interpretou bem mal o mandamento “Amar ao próximo como a si mesmo”.