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Patriarcado-Poder-Capitalismo

28 maio
É comum acreditar que o patriarcado atue somente sobre as mulheres, entretanto, ele rege toda a sociedade e toda forma de relação que existe nela, o que inclui os homens. Ainda que a sociedade patriarcal aja com crueldade ao moldar o homem, ela age de modo muito mais violento com a mulher, tornando a interação homem-mulher em qualquer instância um jogo de poder e opressão onde, invariavelmente, as mulheres perdem.
O patriarcado torna o homem um ser “incapaz” da compreensão e do respeito. Este cresce acreditando estar acima de valores que deveriam ser da humanidade e não apenas das mulheres. Ele ignora que pode calorosamente vivenciar seus sentimentos e expressá-los de maneira plena, transformando-o num ser amorfo, arrogante, individualista e frio.
Para a mulher, é necessário sempre estar à merce deste ser “sem alma” e encaixada dentro de um molde nunca feito para ela. Em nossa sociedade, apesar deste ser homem também se encontrar em molde “torto”, ainda é possível encontrar certo nível de conforto, em especial para o homem branco, que permanece numa posição imensamente mais favorável que a do homem negro ou indígena. Já para a mulher, este molde caminha, ao longo da história, marcado por constantes podas físicas, emocionais e mentais.
É fato que somos afetad@s por esse sistema há mais tempo do que podemos imaginar e, por mais que consigamos entender que isso é cruel a tod@s, as vítimas permanecem sendo as pessoas identificadas como mulheres.
Mais terrível ainda é saber que, mesmo sendo vítimas do patriarcado, existe ainda a apropriação desse sistema de opressão pelo capitalismo, que sempre massacrou os trabalhadores homens. O capitalismo, além de reforçar a ideia de superioridade do patriarcado, homem acima da mulher, ele coloca diversas mulheres acima de outras, como num ciclo “eterno” da demonstração de poder que pode ser observada de várias formas: homem-mulher, mulher-mulher, branc@s-não branc@s, mais ric@s-menos ric@s, pessoas cis-pessoas trans…
O poder do capital criou um ciclo dentro do ciclo. E agora é ele quem comanda. Quando duas forças opressivas se unem, nunca o resultado pode ser o melhor. Aliando um ao outro, patriarcado e capitalismo acabam, por fim, matando a todas nós e, posteriormente, todos eles.

Quem respira por Maria?

15 maio

Tá escuro. Café tá pronto, banho tomado, crianças vestidas para a escola. A pia segue atolada de louça, como sempre. A roupa pra lavar fica pra depois. Hoje tem chuva e é melhor não arriscar. Bolsa no ombro, dente escovado, carrega as crianças rua abaixo. Lá de longe já se vê o ponto de ônibus lotado. Corre. Se aperta, ninguém ajuda. Tod@s carregam suas próprias crianças, suas malas, bolsas, marmitas, mercadorias. Escola tá abrindo. “Que bom!” – pensa. Não daria mesmo pra esperar se não estivesse. São muitos caminhos a percorrer pela cidade. Beija, abraça, dá adeus de forma apressada. “Maria vem buscar vocês hoje”. As crianças nem escutam direito. Corre. Mais um ônibus. Trem lotado. Sempre parando. “Mas ainda dá tempo” – ela torce. Metrô lotado. Terminal de ônibus lotado. A rua onde desce é bonita. Tranquila. Dessas cheias de árvore. Tá escuro. Café tá pronto. As crianças estão no banho. A roupa está lavada e dobrada. Chão varrido. Nenhuma louça na pia. “Bom dia, Maria.” – alguém diz com a cara amassada. “Bom dia, patroa.” – Maria diz toda acordada. O sol finalmente nasce. Todos saem. Camas, escadas, quadros, salas, cozinha, garagem, jardim. Tudo limpo. Marmita tá quente. Não dá tempo de esfriar. Crianças chegam da escola. Em algum lugar mais longe outra Maria busca as crianças de Maria. “Tchau crianças!” – sai apressada. Bolsa no ombro, uniforme trocado. Ônibus vazio. Dá até pra sentar. Metrô, trem, ônibus. Na loja todos correm. “Banheiro quebrou de novo.” – diz o gerente. Maria vai resolver. Maria resolve. Chão, estoque, calçada, balcão. Tudo limpo. Exceto a pia de Maria. “Tchau, Maria! Bom descanso!” – bem que ela gostaria. Ônibus, metrô, trem. Tá escuro. Sobe a rua apressada como se estivesse no começo do dia. “Oi Maria, vim buscar as crianças… Não, amanhã não vou limpar não. Amanhã é dia de feira. Vou lá quebrar um galho… Tá certo… Obrigada!”. Casa. Pia. Chão. Roupa. Comida. Marmita. Dinheiro… Esse não tem. Talvez depois da feira. Banho. Dormir. Não, Maria não dorme. Ainda tem as costuras pra terminar. Apaga a luz. Tá escuro. Café tá pronto. Maria vem buscar as crianças pra escola enquanto Maria lava a louça. Feira. Entrega as costuras. Loja. “Maria, não tem mais como manter você aqui. Eu sinto muito mesmo.”. Pela primeira vez ela pensa em andar devagar. Mas não pode. Não tem tempo. As crianças precisam comer. “No bar tem trabalho.” – ela torce. Ônibus, metrô, trem. Maria já espera com as crianças de Maria. “Obrigada, comadre! Amanhã não tem loja, mas vou lá no bar… É deve de ter. Talvez lá na fábrica de bolsas. Deixa ir. Hoje não tem luz, precisa aproveitar pras costuras!”. Tá escuro. Café tá pronto. Tá escuro. Hoje Maria vai andando. Ainda escuro. Maria corre. Marias não têm tempo pra respirar.

Sobre a maternidade e a escolha

12 maio

*texto originalmente publicado na TV Lacuna

Dizem que a maternidade é algo incrível. Cresci ouvindo isso e aceitando este fato como parte do meu destino. De fato eu já desejei ardentemente ser mãe. Esse desejo hoje não é algo imposto a mim. Ele é uma escolha minha, que pode ou não ocorrer. Eu não sei se é realmente algo tão incrível como dizem, mas é uma ideia que eu fico feliz em aceitar caso faça parte dos meus sonhos futuros.

É “previsível” que este “tipo de sonho” se torne realidade. Tod@s esperam que eu o realize, afinal, sou mulher e isso é esperado pela sociedade. Eu não me pergunto o motivo dessa previsibilidade. Eu reconheço que a sociedade brasileira associe ser fêmea à maternidade, o que eu me pergunto é por quê o contrário também não é recebido com a mesma veemência.

Refletindo a respeito do caráter biológico de nossa espécie, não há motivos palpáveis para que a maternidade seja necessária ao ponto de sua negação causar o impacto que causa nas pessoas. É fato que estamos provocando o colapso de nosso planeta e, por consequência, ameaçamos a nossa existência. Entretanto, não somos uma espécie em extinção, não vamos desaparecer do planeta por falta de procriação e certamente não precisamos praticar a reprodução compulsória. Temos um desafio mundial para permitir a nossa continuidade na Terra e tenho plena consciência de que o planeta ainda não está perdido. Dito isso, vamos então refletir sobre outros aspectos da maternidade “obrigatória”.

No Brasil não existe uma lei que nos imponha a maternidade. Existe, porém, uma que não permite a interrupção da gestação pela livre escolha da mulher exceto em alguns casos (já ameaçados pela não-justiça que temos). Contudo, não é apenas a lei escrita e registrada que nos rege. Por trás de uma sociedade existe uma história alinhavada aos costumes que a constroem. Não podemos ignorar que a fundação de nosso país está calcada na invasão de um povo conservador católico que, mesmo com a soberania brasileira já conquistada, ainda domina o pensar e agir de nosso povo. É nesta origem religiosa do educar e do pensar que se sustenta a resistência à escolha pela não maternidade. Podemos até contra-argumentar dizendo que o Brasil é um país laico e que Igreja Católica não nos controla mais. De fato não o faz, mas os princípios cristãos tão fortes e numerosos ainda fazem parte do nosso vocabulário e de nossos atos. Essa é uma breve lembrança histórica sobre como a forte presença dos ensinamentos ligados à religião faz parte da construção do pensar. Parte dessa construção social fundamentada na teologia judaico-cristã conta a história de mulheres unicamente ligadas à construção da família (marido e filhos) ou à ruptura mesma. Essa história contada por mais de cinco mil anos tem um peso e uma força de um homem soberano e dono de sua família. Um homem que decide que caminho tomar fazendo a mulher, uma continuação de sua propriedade, segui-lo em sua jornada.

Acredito que não seja necessário discorrer sobre como a influência da Igreja Católica foi essencial para a construção de um homem que, já liberto da relação política entre Igreja e Estado, carrega consigo a imagem do homem dono, cabeça da família e da propriedade, e que tem o poder da palavra, do voto e da lei. A isso damos o nome de machismo. Porque obviamente não podemos dar o nome de igualdade. Seguem assim leis e julgamentos morais que tomam como parâmetro este homem da Bíblia. Um homem “à imagem e semelhança de Deus”, ou seja, um grande criador também homem. Certamente para a mulher sobra muito pouco.

Sendo a mulher este ser subserviente ao homem, que com sua ânsia de dar continuidade ao seu nome e à sua propriedade privada, necessita da instituição familiar para tal, fica evidente que para a mulher resta a maternidade como “papel fundamental” do funcionamento desta instituição. São muitos anos desses ensinamentos e deste reconhecimento. Assim, não podemos esperar que, apesar das mudanças significativas na política nacional e dos processos de empoderamento da mulher, tudo esteja resolvido e que seja fácil chegar e dizer: eu mulher não quero ser mãe e isso soar tão aceitável quanto o homem que diz que não quer ser pai.

Esta não é uma discussão comparativa de direitos. Essa é obviamente uma discussão em que a mulher não está equiparada ao homem em sua autonomia. Autonomia aqui significa aceitar a escolha humana e não ter de convencer ninguém dessa decisão.

Este, sem dúvida, é um dos textos mais difíceis que eu já escrevi até agora. Porque, honestamente, quando uma mulher diz não a qualquer coisa, deveria existir após este não apenas um ponto final e não uma série de tabus e discursos moralistas e privados para provar que esta está errada. A felicidade e plenitude da mulher não está ligada à maternidade, família, casamento ou algo assim. A felicidade está ligada à possibilidade de uma vida plena de direitos e de conquistas. A uma vida de respeito e de representatividade, de equilíbrio social e individual.

Para uma mulher que não anseia a maternidade em nenhuma de suas configurações, não deveria existir a estranheza, e sim a mesma acolhida de uma que anseia. A negativa em aceitar a escolha pela não maternidade está diretamente ligada à resistência cultural ao não que nos é direito, mas que não nos é respeitado.

Não somos reprodutoras. Não estamos exagerando e nem precisamos encontrar a pessoa certa pra perceber que estamos erradas. Somos mulheres em busca de equidade. Ser fêmea não implica em ser mãe. Assim como não ser fêmea ou não ser pessoa binária não implica que não sejamos mães. Não somos obrigadas a repetir padrão algum que tentam nos impor nos discursos do que é “natural”. Não aceitamos mais que nossa escolha seja um incômodo. Não aceitamos brincar de casinha. Não aceitamos que nos digam a que devem servir nossos corpos.

Gosto de pensar que o querer ainda será poder. Que em algum momento da história não será mais necessário ter de convencer ninguém que a maternidade é uma escolha e não um dogma. É uma condição que diz respeito exclusivamente à mulher, tendo ela já parido, adotado ou não. Nosso único papel social a cumprir é o de viver plenamente nos respeitando e respeitando as outras pessoas, como deveria ser o papel social de qualquer outr@. A função da mulher é apenas ser. Sem complementos, sem adjetivos ou funções adjacentes.

Este não deveria ser um “textão”. Aliás, nem deveria ser mais uma discussão. O assunto deveria acabar imediatamente após a frase “não quero ser mãe”. Mas nada relacionado ao empoderamento da mulher é fácil assim. É um pouco mais fácil quando se tem dinheiro para realizar um aborto seguro ou se tem apoio para enfrentar o machismo e a violência doméstica, quando se consegue barrar a cultura do estupro (alguém aí já conseguiu?…)

À mulher não foi dada a voz. Tudo lhe foi tirado e ainda é sob o disfarce dos homens de bem tão preocupados com nossas vidas. Ainda assim, vozes se erguem e vozes devem se calar para que a mulher possa falar.

Não somos animais nascidas em cativeiro, todavia ainda não somos totalmente livres. Enquanto nossas escolhas forem pautadas (e permitidas) a partir de instituições públicas ou privadas comandadas por homens (e portanto machistas), estaremos apenas pairando pelo conceito de liberdade. Enquanto nossas escolhas forem recebidas com ressalvas e recusas baseadas na moralidade, não teremos alcançado a autonomia que etiqueta a “boa vontade” masculina. Enquanto a todas as mulheres que não desejam ser mães, não for dado o mesmo respeito e aceitação que eu tenho por querer ser, nenhuma mulher será plenamente mulher, ou seja, ser human@ em todos os seus direitos.

O que está pode e deve mudar

4 maio

Viver é muito mais difícil que fazer teatro. A vida, apesar de cheia de representações, não tem marca, luz, cortina fechada. No palco, eu sei o que fazer. Acredito que quem está lá comigo também sabe, mas nas relações humanas tudo é um jogo muito mais complexo de tentativa e erro. A roda gira é sua vez de agir ou esperar. Na vida real somos submetid@s à vontade alheia sem texto pré-decorado.

Particularmente, eu nunca fui muito boa em improvisação mas gosto bastante de viver e me relacionar. Como escritora, corro o risco de me prender muito mais ao pensar as relações humanas do que ao vivê-las em sua potência máxima. Isso só me aparece de tempos em tempos e fico grata quando consigo me dar essa possibilidade de tentar viver plenamente.

Vivenciar todas as relações de forma cristalizada hoje me parece um erro terrível. Não podemos ficar estátic@s perante as mudanças que nos são impostas, nem nos acovardar perante as que nos propomos fazer. É certo que não estamos preparad@s para tudo, entretanto é necessário estarmos mais dispost@s a entrar e sair dos ciclos.

“Como foi seu dia?”, às vezes me perguntam. Nem eu sei ao certo dizer, apenas o vivi e cheguei ao seu fim sem saber se amanhã terei outro.

A vida está angustiante e cada vez mais frenética. São tantos os desafios apresentados que, aparentemente, sobra pouco tempo pra pensar e respirar. Precisamos enfrentar nossos medos e inseguranças para lidar e refletir para além da nossa vida pessoal. O individualismo que nos empurram goela abaixo nos faz esquecer das parcerias que devíamos nutrir, das dificuldades dos nossos trabalhos (quando os temos), das lutas que deveríamos empenhar, da forma como a sociedade está funcionando.

1ª greve geral brasileira foi iniciada por mulheres em 1917

Cada vez mais tenho certeza que a engrenagem está desencaixada e que alguém está sendo mais e mais massacrad@ pelos seus dentes, sufocad@ pela nossa omissão. Os que estão no poder permanecem montando nas nossas costas. Uma parte sente o peso e outra parte não. “Mas tudo bem”, esqueço rapidamente do outro quando entro em meu carro, fecho o vidro e chego em casa, na minha vidinha miúda e sem crítica.

Algo está muito errado em como nos relacionamos com o mundo e nem sequer percebemos mais o que. É preciso mudar. Somos oprimid@s e reproduzimos a opressão, transformamos toda nossa vida em relações de poder e nos permitimos sermos ferid@s por “instituições e entidades maiores”, pois “assim é”. Ficamos fragmentad@s e sozinh@s quando deveríamos dar as mãos e nos unir.

Nada é! Tudo está!

Uma peça teatral só funciona quando a equipe inteira trabalha junto. Talvez a vida deva de fato imitar a arte para que reste alguma possibilidade de caminhada.

“Somos todos iguais, braços dados ou não”.

Junt@s resistimos. Quando descobriremos isso?

A farda que mata

1 maio

Em que momento nos perdemos na chance da mudança? Quando deveríamos ter dito “pare” e não o fizemos? Quando deixamos de nos enxergar n@ outr@? Nos desumanizamos tanto assim que fomos capazes de esquecer quem somos por trás da armadura da violência e do poder?

Me pergunto até onde pode chegar a opressão. Qual é o ponto limite entre perder para sempre a nossa alma permitindo a cegueira que, ao atirar n@ outr@, acertamos a nós mesm@s?

A bala de borracha nos atinge por inteiro. A fumaça que intoxica, o estouro que nos ensurdece sai de nossas mãos para nosso próprio corpo.

Não há escudos para aquel@s que atiram as bombas. Elas destroem o que nos une. Quando a farda representa a morte d@ outr@, representa também a morte de quem a usa, pois é a blindagem que barra a própria humanidade.

A farda também mata aquel@ que a veste.

Foto: Mídia Ninja

Sobre a reforma da previdência

15 mar
Eu trabalho com teatro há muitos anos. Aproximadamente 16. Comecei quando ainda era adolescente e sempre tive um lugar pra chamar de “meu trabalho”. Óbvio que, numa sociedade em que tentam te empurrar concursos públicos em nome da estabilidade financeira, escolher trabalhar com teatro não foi exatamente bem aceito por muitas pessoas da minha família, professor@s, colegas de escola e até de faculdade (cursei 2 anos de Moda antes de cursar Artes Cênicas).
Nesses 16 anos eu trabalhei muito. E quando eu digo muito, é muito mesmo. As pessoas desconhecem quanto tempo se investe em estudo, pesquisa, produção e criação. Quantas horas duram os ensaios, as apresentações, a montagem e a desmontagem da luz, cenário, som, lavagem de figurinos, maquiagem… É realmente muito cansativo e como é pouco valorizado, a gente ganha bem pouco na maioria dos trabalhos. Então precisamos de muitos para tentar pagar todas as contas, talvez guardar uns 20 reais na poupança e tomar uma cerveja com @s amig@s. Trabalhar com teatro foi uma escolha e eu não sei se vocês sabem, mas artista não tem carteira assinada pra isso. Contribuir com a previdência é uma escolha que pouc@s fazemos, até porque não sobra dinheiro para tal, exceto raras exceções (como grandes musicais, emissoras de TV).
Eu e uma infinidade de outr@s artistas provavelmente não vamos nos aposentar. A arte não é bem algo que a gente se desliga quando acha que já trabalhou muito. Particularmente, não consigo me imaginar não criando algo, seja uma dramaturgia, um texto pra internet, uma dança ou uma peça. Eu me imagino sendo artista para sempre, pois eu posso ser artista para sempre. Eu posso usar minha ferramenta de trabalho (meu corpo, minha mente, minha escrita) de inúmeras formas enquanto viver.
Dito isso, muitas pessoas podem afirmar “então a reforma da previdência pouco importa pra você”. Talvez ela realmente não me afete diretamente. Mas ela afeta meu pai, minha mãe, minha irmã, meu cunhado, minhas amizades, minha vizinhança, meu bairro, minha cidade… Ou seja, ela afeta todo o país. Como que eu, pessoa artista, posso não me importar com ela? Como eu permitiria me excluir de uma sociedade que trata as pessoas à minha volta como objetos dispensáveis que não necessitarão de cuidados no futuro? Que não terão as mesmas condições que eu de continuar produzindo para se sustentar? Isso imaginando um futuro em que a arte consiga pagar as minhas contas, o que já bem improvável considerando o desmonte que vem acontecendo em nosso país.
A previdência deveria ser a garantia de que as pessoas são respeitadas por seus anos de trabalho. Numa sociedade onde o trabalho é colocado como representante de quem se é, o mínimo que deveria acontecer é que exista um amparo do Estado para aquel@s que o servem. Que o sustentam.
A reforma proposta neste governo ilegítimo, golpista, corrupto é execrável! E sim, afeta a tod@s nós! Diga não a esse ataque. Diga não à continuação da exploração. Diga não à reforma da previdência. 
FORA TEMER! APOSENTADORA FICA!

Como você pensa a sua cidade?

29 set

Época de eleição sempre me faz [re]pensar o que faço pela minha cidade ou pelo meu país. Desde 2002 tenho me interessado cada vez mais sobre a política nacional. Tudo começou com uma professora de geopolítica daquelas bem apaixonadas pelo tema. Todo mundo já teve uma pessoa assim na vida. Alguém que, de tão apaixonad@, desperta a mesma paixão em outras pessoas.

Eu tinha 17 anos quando Lula finalmente foi eleito presidente. Era semana da viagem de formatura e lembro de ficar bem preocupada com o que isso significaria para o Brasil. Desde então, muito do que eu entendia por política amadureceu com a idade, com as minhas escolhas e ideais para o mundo que eu queria ver acontecer. Entrar na universidade pública fez toda a diferença. Sou mulher de classe média e sempre estudei em colégios particulares ouvindo coisas como “se você não se comportar bem ou tirar notas ruins, vou te colocar na escola pública”. Eu tinha medo do público. Ele era um castigo e não parte da minha vida. Hoje, aos 31 anos, a esfera pública tomou outra dimensão. Pra mim ela é objetivo e não castigo, é onde eu quero estar.

Desde que me entendi uma pessoa de esquerda, tenho tentado aliar meus ideais às minhas ações e elas passam invariavelmente pela eleição. Me pego pensando em como atuar neste campo através do meu voto e das minhas palavras. Tenho tentado ser coerente com o feminismo e a representatividade em tudo que escrevo e penso. Para tal, seria óbvio que, nesta eleição municipal, eu votasse numa mulher que tenha a mesma coerência que eu procuro obter um dia. Mas a situação política que vivemos não está facilitando essa minha posição.

Refletir sobre o que é bom para a minha cidade me fez ter mais dúvidas do que convicções, questionamentos sobre como me posicionar para que a cidade seja respeitada em suas conquistas e necessidades. É preciso deixar de lado meus interesses privados para que essas necessidades da cidade sejam atendidas.

Analisando o risco que corremos se candidatos como Doria, Russomanno ou Marta assumirem a cidade, é preciso votar com estratégia. E talvez isso signifique votar não com o coração, mas com possibilidades. Ter de escolher entre Erundina e Haddad me deixa ao mesmo tempo feliz e angustiada. É preciso pensar na minha cidade independente de mim, mas com a minha participação. Permitir que projetos sociais consistentes sejam jogados no lixo não é algo que estou disposta a fazer, e aquelas três pessoas o farão. Disso não tenho dúvidas. E ainda assim me pergunto: faço do meu voto uma posição da coerência que busco? Abro mão da representatividade feminista [mesmo que não totalmente] ou ajudo uma força grupal a continuar um trabalho tão intenso de transformação de São Paulo? Honestamente, ainda não tenho uma resposta para isso. Sei que meu voto é só um, mas é a minha voz desejando o melhor para minha cidade.

Já é batido dizer que temos de votar com consciência, mas neste momento que estamos, isso se faz mais urgente do que nunca. Estamos definindo qual a prioridade coletiva da cidade e isso afetará tod@s, contudo, afetará ainda mais @s que não são de classe média ou alta e é nessas pessoas que temos de pensar. Sei que ambas as propostas de Erundina e Haddad se alinham mais com a transformação social que desejo. E sei também que Doria, Russomanno e Marta estão totalmente afastados da coerência social e política que São Paulo precisa.

Como pensamos e agimos nossa cidade? Como faremos? Com quem faremos? Confesso que ainda não encontrei a resposta. Certamente a terei até domingo e espero que tod@s consigam uma que faça sentido ao ideal que temos de uma boa cidade para se viver. Os tempos são difíceis e estamos tod@s à flor da pele. Que isso não nos impeça de votar com sabedoria.

E só para concluir, hoje e sempre, FORA TEMER!