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Sobre a maternidade e a escolha

12 maio

*texto originalmente publicado na TV Lacuna

Dizem que a maternidade é algo incrível. Cresci ouvindo isso e aceitando este fato como parte do meu destino. De fato eu já desejei ardentemente ser mãe. Esse desejo hoje não é algo imposto a mim. Ele é uma escolha minha, que pode ou não ocorrer. Eu não sei se é realmente algo tão incrível como dizem, mas é uma ideia que eu fico feliz em aceitar caso faça parte dos meus sonhos futuros.

É “previsível” que este “tipo de sonho” se torne realidade. Tod@s esperam que eu o realize, afinal, sou mulher e isso é esperado pela sociedade. Eu não me pergunto o motivo dessa previsibilidade. Eu reconheço que a sociedade brasileira associe ser fêmea à maternidade, o que eu me pergunto é por quê o contrário também não é recebido com a mesma veemência.

Refletindo a respeito do caráter biológico de nossa espécie, não há motivos palpáveis para que a maternidade seja necessária ao ponto de sua negação causar o impacto que causa nas pessoas. É fato que estamos provocando o colapso de nosso planeta e, por consequência, ameaçamos a nossa existência. Entretanto, não somos uma espécie em extinção, não vamos desaparecer do planeta por falta de procriação e certamente não precisamos praticar a reprodução compulsória. Temos um desafio mundial para permitir a nossa continuidade na Terra e tenho plena consciência de que o planeta ainda não está perdido. Dito isso, vamos então refletir sobre outros aspectos da maternidade “obrigatória”.

No Brasil não existe uma lei que nos imponha a maternidade. Existe, porém, uma que não permite a interrupção da gestação pela livre escolha da mulher exceto em alguns casos (já ameaçados pela não-justiça que temos). Contudo, não é apenas a lei escrita e registrada que nos rege. Por trás de uma sociedade existe uma história alinhavada aos costumes que a constroem. Não podemos ignorar que a fundação de nosso país está calcada na invasão de um povo conservador católico que, mesmo com a soberania brasileira já conquistada, ainda domina o pensar e agir de nosso povo. É nesta origem religiosa do educar e do pensar que se sustenta a resistência à escolha pela não maternidade. Podemos até contra-argumentar dizendo que o Brasil é um país laico e que Igreja Católica não nos controla mais. De fato não o faz, mas os princípios cristãos tão fortes e numerosos ainda fazem parte do nosso vocabulário e de nossos atos. Essa é uma breve lembrança histórica sobre como a forte presença dos ensinamentos ligados à religião faz parte da construção do pensar. Parte dessa construção social fundamentada na teologia judaico-cristã conta a história de mulheres unicamente ligadas à construção da família (marido e filhos) ou à ruptura mesma. Essa história contada por mais de cinco mil anos tem um peso e uma força de um homem soberano e dono de sua família. Um homem que decide que caminho tomar fazendo a mulher, uma continuação de sua propriedade, segui-lo em sua jornada.

Acredito que não seja necessário discorrer sobre como a influência da Igreja Católica foi essencial para a construção de um homem que, já liberto da relação política entre Igreja e Estado, carrega consigo a imagem do homem dono, cabeça da família e da propriedade, e que tem o poder da palavra, do voto e da lei. A isso damos o nome de machismo. Porque obviamente não podemos dar o nome de igualdade. Seguem assim leis e julgamentos morais que tomam como parâmetro este homem da Bíblia. Um homem “à imagem e semelhança de Deus”, ou seja, um grande criador também homem. Certamente para a mulher sobra muito pouco.

Sendo a mulher este ser subserviente ao homem, que com sua ânsia de dar continuidade ao seu nome e à sua propriedade privada, necessita da instituição familiar para tal, fica evidente que para a mulher resta a maternidade como “papel fundamental” do funcionamento desta instituição. São muitos anos desses ensinamentos e deste reconhecimento. Assim, não podemos esperar que, apesar das mudanças significativas na política nacional e dos processos de empoderamento da mulher, tudo esteja resolvido e que seja fácil chegar e dizer: eu mulher não quero ser mãe e isso soar tão aceitável quanto o homem que diz que não quer ser pai.

Esta não é uma discussão comparativa de direitos. Essa é obviamente uma discussão em que a mulher não está equiparada ao homem em sua autonomia. Autonomia aqui significa aceitar a escolha humana e não ter de convencer ninguém dessa decisão.

Este, sem dúvida, é um dos textos mais difíceis que eu já escrevi até agora. Porque, honestamente, quando uma mulher diz não a qualquer coisa, deveria existir após este não apenas um ponto final e não uma série de tabus e discursos moralistas e privados para provar que esta está errada. A felicidade e plenitude da mulher não está ligada à maternidade, família, casamento ou algo assim. A felicidade está ligada à possibilidade de uma vida plena de direitos e de conquistas. A uma vida de respeito e de representatividade, de equilíbrio social e individual.

Para uma mulher que não anseia a maternidade em nenhuma de suas configurações, não deveria existir a estranheza, e sim a mesma acolhida de uma que anseia. A negativa em aceitar a escolha pela não maternidade está diretamente ligada à resistência cultural ao não que nos é direito, mas que não nos é respeitado.

Não somos reprodutoras. Não estamos exagerando e nem precisamos encontrar a pessoa certa pra perceber que estamos erradas. Somos mulheres em busca de equidade. Ser fêmea não implica em ser mãe. Assim como não ser fêmea ou não ser pessoa binária não implica que não sejamos mães. Não somos obrigadas a repetir padrão algum que tentam nos impor nos discursos do que é “natural”. Não aceitamos mais que nossa escolha seja um incômodo. Não aceitamos brincar de casinha. Não aceitamos que nos digam a que devem servir nossos corpos.

Gosto de pensar que o querer ainda será poder. Que em algum momento da história não será mais necessário ter de convencer ninguém que a maternidade é uma escolha e não um dogma. É uma condição que diz respeito exclusivamente à mulher, tendo ela já parido, adotado ou não. Nosso único papel social a cumprir é o de viver plenamente nos respeitando e respeitando as outras pessoas, como deveria ser o papel social de qualquer outr@. A função da mulher é apenas ser. Sem complementos, sem adjetivos ou funções adjacentes.

Este não deveria ser um “textão”. Aliás, nem deveria ser mais uma discussão. O assunto deveria acabar imediatamente após a frase “não quero ser mãe”. Mas nada relacionado ao empoderamento da mulher é fácil assim. É um pouco mais fácil quando se tem dinheiro para realizar um aborto seguro ou se tem apoio para enfrentar o machismo e a violência doméstica, quando se consegue barrar a cultura do estupro (alguém aí já conseguiu?…)

À mulher não foi dada a voz. Tudo lhe foi tirado e ainda é sob o disfarce dos homens de bem tão preocupados com nossas vidas. Ainda assim, vozes se erguem e vozes devem se calar para que a mulher possa falar.

Não somos animais nascidas em cativeiro, todavia ainda não somos totalmente livres. Enquanto nossas escolhas forem pautadas (e permitidas) a partir de instituições públicas ou privadas comandadas por homens (e portanto machistas), estaremos apenas pairando pelo conceito de liberdade. Enquanto nossas escolhas forem recebidas com ressalvas e recusas baseadas na moralidade, não teremos alcançado a autonomia que etiqueta a “boa vontade” masculina. Enquanto a todas as mulheres que não desejam ser mães, não for dado o mesmo respeito e aceitação que eu tenho por querer ser, nenhuma mulher será plenamente mulher, ou seja, ser human@ em todos os seus direitos.

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36 maneiras de ser contra a cultura do estupro

27 maio

Recentemente me perguntaram o motivo de só escrever sobre mulheres e nunca sobre homens. Bem, primeiro, eu não escrevo só sobre mulheres, eu escrevo sobre o que eu quiser ou sobre o que me pedirem pra escrever. Em segundo lugar, eu sou mulher e escrevo. Portanto, eu escrevo sobre mulheres. Eu o faço por gostar, pelo empoderamento, pela arte, pela produção feminina e sua valorização.

Estamos em 2016 e muita coisa já deveria ter mudado no que diz respeito às mulheres. E não é individualmente delas que eu estou falando. É de tudo que está relacionado a ser mulher. Então eu também escrevo sobre isso porque é necessário.

Escrevo sobre mulheres pois ainda hoje não somos respeitadas, não temos os mesmo salários que os homens e ainda não temos direito pleno ao nosso corpo. Isso vai desde o simples fato de não poder menstruar em paz (no caso das mulheres cis), até o policiamento das palavras que usamos, roupas que vestimos, estilo dos nossos cabelos, dos pelos no corpo. Vai do direito de escolhermos ser mães ou não ao direito à segurança. Somos seres sociais com menos direitos sociais. Coisa que muita gente ainda não percebeu ou aceitou. E esse “muita gente” é você, homem. Então hoje, o meu texto é para vocês.

No Brasil, ser mulher ainda significa ser inferior. Ser mulher negra ou trans significa menos ainda. Já ser homem significa ter todos os direitos possíveis se você for branco e cis. Inclusive ter o direito de nos estuprar. Sim. Você homem tem esse direito e sabe por quê? Porque você nunca é o culpado. É sempre a nossa roupa, o nosso comportamento ou local onde estamos. E nem adianta vir com aquele argumento “nem todos os homens”.

nao estupre

Vocês homens possuem todo o sistema a favor de vocês. Todos saem rapidamente em defesa dos homens ao mesmo tempo que nos culpam por seus atos e descontroles. São vocês que dizem que exageramos, que demos o sinal errado, que estávamos pedindo. São vocês que estupram uma mulher a cada 12 minutos, sendo a maioria negra, vítimas do racismo sistematizado. Portanto, sim, todos os homens podem ser estupradores em potencial. Mas você não quer ser isso, quer? Você quer estar ao nosso lado dizendo que também não concorda com isso, não é mesmo? Pois então, aqui fica um manual simples de ações e lições de como ser contra a cultura do estupro na prática:

  1. Não estupre
  2. Impeça estupros
  3. Denuncie estupros
  4. Repudie piadas machistas
  5. Diga aos seus amigos que a forma como eles tratam mulheres é errada
  6. Não apoie ou incentive seu amigo a beijar uma mulher a força
  7. Não divulgue fotos de mulheres nuas ou seminuas. Quando isso acontecer, denuncie
  8. Não fique em silêncio ao ver uma mulher numa situação violenta
  9. Tente lembrar quantas vezes você transou com uma mulher bêbada, pode ter sido um estupro
  10. Não significa não
  11. Assistir a uma cena de violência contra a mulher e não fazer nada faz de você um cúmplice, não um “brother”
  12. Acredite na mulher quando ela disser que você está sendo machista. Fique em silêncio, a escute e reflita
  13. Se coloque no lugar da mulher e se pergunte se gostaria de estar nessa posição
  14. Ao pedir desculpas por uma ação machista, não a repita nunca mais. Caso contrário, suas desculpas não servem de nada
  15. Lembre-se: NINGUÉM MERECE SER ESTUPRAD@
  16. Denuncie a violência contra a mulher
  17. Nunca culpe a vítima. NUNCA! Entendeu?
  18. Não fique falando por aí como você é diferente de um agressor. Apenas não seja um. Suas ações dizem muito mais sobre você do que seu discurso
  19. Não finja que você nunca forçou a barra
  20. Se você cometeu um erro, assuma a responsabilidade por ele
  21. Lembre-se: você não merece confete por uma atitude não machista
  22. Nunca, em contexto algum, use argumentos biologizantes como “homens são assim mesmo” para justificar um comportamento violento ou abusivo, mas saiba que esse comportamento tem origem na maneira como homens são educados e que, portanto, é cultural
  23. Lembre-se: estupro não é sexo
  24. Em briga de marido e mulher se mete a colher sim! Não se omita em casos de violência doméstica
  25. Conscientize seus amigos e familiares sobre o estupro
  26. Não compactue com pessoas, causas ou mídias que façam apologia ao estupro ou o romantizem
  27. Não suavize os danos emocionais, físicos e psíquicos de um estupro
  28. Também fazem parte da cultura do estupro: assédio moral e sexual; piadas, gírias e expressões machistas; cantadas de rua
  29. Aceite que mulheres têm o direito de estar com raiva dos homens. Elas têm
  30. Não são as mulheres que precisam se dar ao respeito. É você que precisa respeitá-las
  31. O estupro não é menos violento por ter “apenas” um agressor. Estupro é inaceitável em todos os contextos
  32. Não ridicularize ou suavize o estupro com piadas ou comentários condescendentes
  33. Não se acomode achando que “é assim que as coisas são”. Não. É assim que as coisas estão. Você pode mudá-las
  34. O estupro não é um comportamento natural
  35. Lembre que você faz parte do “coletivo” homens e que este é um coletivo opressor
  36. Estupro é crime

Esses e outros lembretes lhe serão dados sempre. Não os ignore. Não os esqueça. Não deixe sua manifestação contra a cultura do estupro apenas no seu discurso. Se você realmente quer mudar isso, aja como um homem contra o estupro.

fimdacultdoestupro

imagem símbolo do feminismo negro. mulheres negras são as que mais sofrem com a violência contra a mulher. na maioria dos casos, simplesmente por ser negra. diga não ao racismo e à violência contra a mulher

 

Links que você precisa conhecer:
Ligue 180 para denunciar a violência contra a mulher
Mapa da violência