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Emagreci muito. E agora? O que isso quer dizer

5 jun
Muita gente tem me encontrado na rua e falado “NOSSA, COMO VOCÊ EMAGRECEU”. E muita gente faz isso sorrindo. Pois muito bem. Tá na hora de falar sobre isso. respira e vem comigo.
Há bastante tempo eu publico coisas sobre o empoderamento do corpo gordo e contra a gordofobia. E há bastante tempo eu também sei e sinto que meu corpo é maravilhoso. Sem o “apesar de ser gorda”.
Ser gorda não influencia a minha percepção de beleza há anos. Mas acontece que eu emagreci muito. Não estava nos meus planos perder peso ou medidas nem a curto e nem a longo prazo. Eu estava “quase” feliz com meu corpo.
digo quase, pois o motivo, tanto de ter emagrecido quanto de não estar plenamente feliz, é uma doença que se chama HIDRADENITE SUPURATIVA (HS).
Já falei sobre isso no facebook e no blog, mas talvez vocês não saibam que é uma doença bem pesada. Só que fica escondida. pouquíssima gente a vê em mim e pouquíssima gente percebe o quanto ela me afeta, já que estou sempre no rolê sorrindo, trabalhando e parece que nada está errado. Não é assim.
A HS me faz sentir dor. MUITA DOR. Tanta dor que, neste belo ano de 2017, ela me deixou de cama por quase 3 meses.
Por 3 meses eu não conseguia trabalhar, sair de casa, dançar, andar, ir ao banheiro direito, trocar de roupa, dormir, tomar banho, comer… enfim, tudo que a gente faz sempre.
Foram meses de muito desespero, de desistência, de falta de vontade de viver. Mas também foram meses de muita ajuda, acolhimento, cuidado e amparo. Família e amig@s não saíram do meu lado. Cuidaram de mim e garantiram que eu pudesse continuar, coisa que eu realmente não sabia se conseguiria. Mas aqui estou. Elas me salvaram e serei eternamente grata a elas.
Tenho dor há anos e, apesar da grande melhora (principalmente graças à homeopatia, único tratamento que funcionou por aqui), ainda tenho dor. Eu tenho sequelas. Eu quase consigo dançar de novo, mas eu manco. Eu canso fácil e preciso me esforçar muito pra me movimentar. Andar muito é difícil e eu tenho que parar de vez em quando. Tenho dificuldade de mobilidade e não dá pra ficar muito tempo sentada. Levantar dos lugares requer muita preparação.
Por 3 meses eu praticamente não comi. Às vezes tomava café da manhã em pé e só ia jantar depois que todo mundo já estava dormindo. Era tanta dor… Comer? Nem sentia fome.
Mesmo amparada pelas pessoas que me amam, eu estava isolada e sozinha. É muito solitário estar de cama.
Eu entendo que você acha que eu estou mais bonita agora que estou mais magra, mas não fique chatead@ se eu brigar com você quando você me elogiar por isso. Eu estou me recuperando e você ainda não sabe que eu só perdi peso por estar incrivelmente doente e com dores que me faziam querer morrer já que nenhum analgésico funcionava, com febres que me faziam alucinar de vez em quando.
De fato eu estou mais bonita, mas isso é porque eu consigo andar! todo dia que eu levanto da cama é um dia bom. Minha alegria da semana é conseguir pegar os dois ônibus que preciso para ir pro trabalho. Eu estou mais feliz porquê achei que isso não ia acontecer de novo.
Ter 31 anos e pensar em aposentadoria por invalidez não era exatamente meu sonho de vida, então agora que eu posso fazer quase tudo de novo, é óbvio que a beleza fica junto.
Tá tudo bem você me elogiar, eu adoro e sei que você também. Vamos nos elogiar mais! Só saiba que magreza não é sinônimo de beleza, e sim de quem somos e como estamos. Todas as pessoas são belas! Vamos entender isso?
E se você quer saber um pouco mais sobre a HS (Hidradenite), segue o primeiro vídeo da Jessica Tauane (do canal Gorda de Boa) falando sobre isso.
 

Sobre os elefantes no céu

1 nov

Sempre amei ver as formas que as nuvens criam no céu. Principalmente os animais. De uma forma ou de outra, acabo sempre por encontrar um elefante. E, se possível, um elefante bebê.

Eles são tão graciosos! Brincalhões e amorosos. São animais que verdadeiramente me fascinam. Talvez pelo seu tamanho, sua grandeza. Eu gostaria de ser um elefante bebê para brincar por aí. Isso me lembra a infância, quando se podia correr e se sujar de lama no calor para depois ver a lama escorrer com a água da mangueira do quintal.

Interessante pensar em quanto o elefante hoje me encanta quando, no passado, nessa mesma infância solta e “livre”, ele já foi sinônimo de incômodo. Quando criança, eu não entendia a beleza e a majestade do elefante. Ele era apenas mais uma forma de me ofender por ser gord@. Que triste é associar tal animal a um preconceito. Ele que, na realidade é tão leve e feliz.

Ainda hoje procuro elefantes nas nuvens ainda buscando essa alegria que ele representa. Se tod@s o vissem como eu, ser chamad@ de elefante seria um grande elogio. Quem sabe se olharmos verdadeiramente o elefante e pudermos encontrar a sua essência, possamos nos libertar como ele e brincar também pelo céu com a mesma leveza.

elefante-agua

Olha a gorda!!!

5 jun

Escrevi pra Revista Pólen sobre ser gorda e feliz. Sim, eu sou feliz sendo gorda e isso não é impossível. Mas ainda há muito o que dizer.

Depois de muito sofrer, algumas pessoas gordas finalmente se aceitam, se amam, se acham maravilhosas. Mas infelizmente o mesmo não acontece no “mundo lá fora”. Pessoas magras não entendem e não reconhecem. Empresas não se interessam em nos vestir. Propagandas não querem nos mostrar. Não estamos nos palcos. Não somos protagonistas. Somos a piada. Somos inexistentes e indesejad@s. Então no fim, muito e pouco importa como nos sentimos se isso não chega às outras pessoas.

É preciso rever a sua relação com pessoas gordas, sema profissionais, estéticas ou pessoais. Vocês também fazem parte da nossa vida e nós fazemos parte da sua. Nós te repeitamos, pessoa magra. Nós te admiramos, te amamos, te cuidamos, te abraçamos e também te desejamos. E não somos coitad@s. Não menos competentes, menos bel@s, não somos nojent@s, doentes ou qualquer outro adjetivo de cunho inferior. Somos, apenas.

Tem uma hora que ser gord@ vai além da nossa própria aceitação. É também uma questão externa. De não existir nas lojas e ter coragem de entrar nelas mesmo assim, de conseguir comer em público sem achar que estamos sendo julgad@s, de perceber o sentimento de pena nos olhares e não sofrer mais com isso. Não depende só de nos aceitarmos, nos amarmos e nos acharmos lind@s.

“Sou feliz sendo gorda, mas precisamos conversar” é um texto de amor, de dor e de vivência de muitas pessoas gordas. Não é só a minha história, é a de todas as pessoas gordas em algum ponto. É preciso dar voz a essa vivência e dar um basta definitivo à gordofobia. Não é uma questão de gosto, é uma questão de respeito.

Agradeço profundamente à amiga e ilustradora Raquel Thomé por transformar esses sentimentos em imagem, à Milena Martins e Lorena Villaça que me acolheram como colaboradora da Pólen e por todo o lindo trabalho de tod@s colaborador@s da Revista.