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Quem respira por Maria?

15 maio

Tá escuro. Café tá pronto, banho tomado, crianças vestidas para a escola. A pia segue atolada de louça, como sempre. A roupa pra lavar fica pra depois. Hoje tem chuva e é melhor não arriscar. Bolsa no ombro, dente escovado, carrega as crianças rua abaixo. Lá de longe já se vê o ponto de ônibus lotado. Corre. Se aperta, ninguém ajuda. Tod@s carregam suas próprias crianças, suas malas, bolsas, marmitas, mercadorias. Escola tá abrindo. “Que bom!” – pensa. Não daria mesmo pra esperar se não estivesse. São muitos caminhos a percorrer pela cidade. Beija, abraça, dá adeus de forma apressada. “Maria vem buscar vocês hoje”. As crianças nem escutam direito. Corre. Mais um ônibus. Trem lotado. Sempre parando. “Mas ainda dá tempo” – ela torce. Metrô lotado. Terminal de ônibus lotado. A rua onde desce é bonita. Tranquila. Dessas cheias de árvore. Tá escuro. Café tá pronto. As crianças estão no banho. A roupa está lavada e dobrada. Chão varrido. Nenhuma louça na pia. “Bom dia, Maria.” – alguém diz com a cara amassada. “Bom dia, patroa.” – Maria diz toda acordada. O sol finalmente nasce. Todos saem. Camas, escadas, quadros, salas, cozinha, garagem, jardim. Tudo limpo. Marmita tá quente. Não dá tempo de esfriar. Crianças chegam da escola. Em algum lugar mais longe outra Maria busca as crianças de Maria. “Tchau crianças!” – sai apressada. Bolsa no ombro, uniforme trocado. Ônibus vazio. Dá até pra sentar. Metrô, trem, ônibus. Na loja todos correm. “Banheiro quebrou de novo.” – diz o gerente. Maria vai resolver. Maria resolve. Chão, estoque, calçada, balcão. Tudo limpo. Exceto a pia de Maria. “Tchau, Maria! Bom descanso!” – bem que ela gostaria. Ônibus, metrô, trem. Tá escuro. Sobe a rua apressada como se estivesse no começo do dia. “Oi Maria, vim buscar as crianças… Não, amanhã não vou limpar não. Amanhã é dia de feira. Vou lá quebrar um galho… Tá certo… Obrigada!”. Casa. Pia. Chão. Roupa. Comida. Marmita. Dinheiro… Esse não tem. Talvez depois da feira. Banho. Dormir. Não, Maria não dorme. Ainda tem as costuras pra terminar. Apaga a luz. Tá escuro. Café tá pronto. Maria vem buscar as crianças pra escola enquanto Maria lava a louça. Feira. Entrega as costuras. Loja. “Maria, não tem mais como manter você aqui. Eu sinto muito mesmo.”. Pela primeira vez ela pensa em andar devagar. Mas não pode. Não tem tempo. As crianças precisam comer. “No bar tem trabalho.” – ela torce. Ônibus, metrô, trem. Maria já espera com as crianças de Maria. “Obrigada, comadre! Amanhã não tem loja, mas vou lá no bar… É deve de ter. Talvez lá na fábrica de bolsas. Deixa ir. Hoje não tem luz, precisa aproveitar pras costuras!”. Tá escuro. Café tá pronto. Tá escuro. Hoje Maria vai andando. Ainda escuro. Maria corre. Marias não têm tempo pra respirar.

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