Entre Clarices

20 mar

Entre Clarices é um projeto que surgiu sem que eu me desse conta da sua existência. A minha história também se escreve no que leio, já que escolho intuitivamente a obra seguinte. Nada cai na minha mão por acaso, a alma dos livros sussurra qual devo ler.

No fim do ano aconteceu um maremoto dentro de mim. Tive de questionar muitas das minhas escolhas até dezembro de 2014. Foi profundo e foi pesado. Muito solitário. Uma vida toda se fez filme na minha cabeça. O sono se foi, os prazeres perderam um pouco do sabor. Tive pouco tempo para me preparar para grandes mudanças e elas não esperaram a minha reflexão. E com essa coisa toda, não dava pra ler.

As leituras, sempre tão apaixonantes, se transformaram em letras embaralhadas na minha frente. Eu tinha medo de ler. De começar qualquer coisa, na verdade. Alguma coisa martelava na minha cabeça que estava na hora. Num impulso peguei o livro. Li as primeiras páginas em companhia da minha querida amiga-irmã-gema Dias e soube que, por mais que eu lutasse contra, era o momento de encarar aquele livro.

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Ser Clarice tem suas vantagens. Os livros sempre são escritos no instante em que estou lendo. E somente pra mim! Que mágico é isso. Terminei ontem A Paixão Segundo G. H. no momento em que Didi entrava no quarto! Esses mistérios da minha vida… O que dizer? Pra você, nada. Pra mim, tudo foi dito. “Tudo está.”

Cada ciclo da minha vida, desde a decisão de não ler Clarice há mais de 15 anos é, inevitavelmente iniciado e ao mesmo tempo finalizado com Clarice. São períodos em que uma voz me diz: acho que está na hora de uma Clarice. É um caminho sem volta e cheio de flores. O que acontece no meio é alimento. Preparação pra ler Clarice, porque ela me entende. Somos unas na finitude de cada segundo. “Quando se realiza o viver, pergunta-se: mas era só isto? E a resposta é: não é só isto, é exatamente isto.”

Mas se você acha que só Clarice é capaz de me atropelar para me colocar no eixo, se engana. Minhas últimas leituras foram tão intensas que precisei recuperar o fôlego depois de cada uma. Vejo agora uma trajetória fantástica e transformadora. E só pra atualizar a lista, eu estava lendo um montão de livros. Terminei dois deles e guardei alguns. Segue o post que era pra ser outro e que agora é um. 2014 foi assim:

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Tatiana Leskova – Uma Bailarina Solta no Mundo
Suzana Braga
“a finalidade da vida é a própria vida”
“O teatro é como uma religião. Quando você chega e pisa no palco, você precisa acreditar na sua mística – e se entregar. É uma comunhão, é como entrar numa igreja. E para isso é preciso ter muito, mas muito respeito à arte…”

Ela Prefere as Uvas Verdes
Jader Pires
Não vai ter trecho. Vai ter mistério. Leia.

Quando tudo se desfaz: orientações para tempos difíceis
Pema Chödrön
Resgatou o passado dolorido e abriu aquela janela emperrada. Uma profunda reverência às amigas Suzana e Marlise por me lembrarem que o caminho está aqui dentro e é meu.

Entre os Atos
Virginia Woolf
Adoro as imagens poéticas dela. As três últimas páginas são incríveis. De resto, é o segundo livro dela que leio tentando ler o que ela sentia. O que estaria sentindo ao escrever aquelas palavras? Talvez não precise de seus livros, talvez precise de uma sessão espírita.

O Amor nos Tempos de Cólera
Gabriel García Márquez
“Só me dói morrer se não for de amor.”

Meio Sol Amarelo
Chimamanda Ngozi Adichie
Não deu pra respirar, pensar ou ler qualquer coisa por um tempo depois desse livro. Intenso.

Que continue. 

os suspiros da noite

18 mar

eu poderia sussurrar no seu ouvido tudo o que eu sinto
mas que validade isso teria se o que eu mais desejo é encontrar a mim mesma?

por meses as noites passam e os suspiros perdem sua vivacidade
os sonhos são confusos, por vezes tenebrosos
uns chegam, outros vão

assim são os sonhos, os medos e os amanhãs.

Enquanto você não chega

5 mar

Você talvez ainda não me conheça. Quem sabe se vamos nos encontrar nesta vida, mas eu quero muito conversar com você agora. Posso?

Filho, filha… se um dia você vier, eu prometo tentar te escutar sempre. Prometo nunca me vingar ou tentar te envergonhar por qualquer erro que você venha cometer. E saiba, nós dois cometeremos muitos erros.

Filha, filho… enquanto você não chega aqui dentro, eu vou me cuidar e tentar me preparar para ser uma boa pessoa. Olharei e escutarei com mais calma os acontecimentos do mundo e respirarei muitas vezes antes de agir.

Meu filho, filha… a possibilidade de você existir ainda parece muito distante. Não estou grávida e nem planejando ter você neste momento. Estou me preparando para, um dia, me tornar um ser de amor. Uma mulher mais compreensiva, amiga, paciente e carinhosa. Com você ou qualquer outra criança, jovem ou adulto.

Filhinha, filhinho… não podemos deixar que a frustração, a tristeza ou mesmo a raiva se transformem em violência. Nem verbal, nem física. Nunca.

A mamãe vai errar. E muito! Eu também tenho medo que isso aconteça, mas um erro é só um erro.

Acredito que sempre nos perdoaremos por amor. Mesmo que você nunca chegue.

nota rápida sobre a ausência

17 fev

hoje o meu coração é só saudade. tem dia que é assim: escorre lágrima, surge um sorriso, volta uma memória. desse jeito fica até difícil fechar os olhos e dormir. a cabeça dá
voltas nela mesma. o telefone toca e não toca. tudo é estranho. tudo é mistério. tudo é ausência, falta de… de quê? de quem? de como. hoje eu preciso mais que seu carinho ou sua lembrança, hoje eu preciso adormecer num colo macio de braços aconchegantes que me forneçam calor e amor. um “como” para poder sonhar tranquila.

Esperando a Sossô

16 fev

A casa silenciosa de portas e janelas abertas fazem circular o ar e uma leve ansiedade.

Quando você frequenta uma UTI, acaba criando laços com seres que nem imaginaria encontrar. Digo “seres” pois estou falando de uma UTI animal. Dias atrás minha gatinha conseguiu a proeza de abrir uma janela e se enfiar embaixo do carro de um vizinho. Resultado? UTI. Ela segue evoluindo bem, como dizem todos do Hospital Veterinário São Sebastião, na zona norte de São Paulo, mas nem sempre é assim.

Com as visitas constantes, acabamos trombando os mesmos rostos e focinhos com certa frequência. Ontem, o Tandy não resistiu. Não nos veremos mais. Nem seus “pais”, que tão sentidos nos desejaram sorte e a melhora da “filhota”. Assim como uma pequena ao lado da minha Sophie, que apesar de super sapeca, perdeu para as cirurgias mal realizadas de uma outra clínica. A Rosinha estava lá, firme e forte querendo sair a todo custo! O Jeremias precisando de um lar e a Afrodite que, sempre deitadona, só vira de barriga pra baixo quando alguém diz o seu nome. Eles estarão lá hoje à noite?

A Sophie chegou em casa no meio de uma crise. Fugiu durante outra. De olhos arregalados, ela continua e me fazer olhar para além desses pequenos buracos nos quais eu caio. Ainda assim, é difícil. Tem sorriso que não sai. Colo que não surge. Pedidos que não são atendidos. Tem socorro que não chega. Tem visita que não aparece. Tem amigo que não volta. E tem vela que não se apaga. Nunca!

Sigo esperando o momento de fechar as janelas e as portas novamente, para ter a minha lindinha em casa. Minha Sossô. Quem sabe hoje ou amanhã ela está em casa. Somos mães e pais cheios de amor pelos nossos peludinhos esperando a volta deles pra casa com a fé que nos sustenta.

sophie e a rosa

Sophie e a Rosa – foto da mamãe Kel

 

Em terra de [alguns] homens mulher é criminosa

13 fev

Eu sou mulher.

Enquanto isso, ali na janela ao lado, na internet, no bar, na igreja, no congresso, no centro espírita e na casa do vizinho, eu sou um objeto. Se assustou? Para muitos somos seres inanimados. Sabe o que isso significa? Um ser sem alma, portanto sem vida, sem vontade própria. Não parece tão bonito. E não é. Ter direito sobre o próprio corpo é requisito básico de liberdade, civilidade e dignidade. Só que no Brasil, a coisa é outra…e bem feia.

Enquanto estamos aqui…

 

Inspire. A Renata Correa escreveu um texto incrível sobre o desafio contra o aborto. Leia aqui. Inspire novamente. Repense.

Enquanto “a prática insegura mata uma mulher a cada dois dias no país e é a 5a causa de morte materna” – mais aqui -, um número considerável de pessoas levanta uma bandeira supostamente pró-vida. E cada um que o faz legitima a nossa morte. Enquanto se defende com unhas e dentes um feto que só existe se eu existo, a nossa vida é pisoteada, surrada, estuprada, ignorada. Digo nossa porque cada mulher que morre por conta de um aborto clandestino, sujo e inseguro é um pedaço de todas as mulheres que morre junto.

é de doer o útero

é de doer o útero

Enquanto o elitismo e o racismo permanecem no poder, um problema que é só meu tenta ser resolvido por um estranho. Constantemente homem. E meu caro estranho, meu aborto não é problema seu, então não tente defender o feto que não está e nem será gerado no útero que você não tem. Não me diga o que você acha. Eu não pedi a sua opinião! Eu peço justiça, segurança e um tratamento médico e moral digno! É isso que merecemos, pedimos, imploramos, necessitamos!

Enquanto o pretenso amor de Deus é usado para mascarar o machismo perpétuo, eu, você, Allan Kardec e aquele vizinho que lava a calçada com mangueira evoluiremos. No espiritismo se prega a evolução individual acima de tudo. Então não se preocupe com velhos discursos, eles também vão evoluir. Desapegue deles. Mas enquanto isso não acontece, lembre-se: é no meu útero que a vida vai ou não acontecer. A Marília aqui tem chance de sobreviver, ela arranja uma grana emprestada. A mulher negra pobre não. Ela pode (e muitas vezes vai) morrer. Dá uma olhada nesse texto do Blogueiras Negras.

Criminalizar o aborto é criminalizar a mulher. Isso é um ato machista e racista. Agora, você pode continuar escravizando mulheres, apedrejando e as queimando em praça pública ou pode impedir que isso continue acontecendo. O que vai ser?

*tem mais um monte de textos sobre isso, escolhi o da Jarid pra terminar.

Salva pela mãe

2 fev

hoje é dia de yemanjá.

estava ouvindo a bethania e ela pergunta “quem é que já viu a rainha do mar” e eu aqui curtindo a brisa lembrei que já! me salvou de um afogamento quando eu era criança.

ela, linda. de cabelos muito escuros me tirou da água quando eu tinha uns 9 anos. meu pai jura que foi ele. salve rainha!

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