Sobre o que encaixotamos

15 abr

Encaixotar coisas requer o mínimo de solidão programada. As caixas, ainda que belas e seguras, guardam muito mais do que objetos esquecidos.

É preciso consciência e muita inspiração para escolher o que fica e o que vai, assim como seus motivos.

Que as caixas se abram novas e seguras mais do que lacrem. E que, ao guardá-las seja para manter acolhido aquilo que caminha: um processo e não um passado restrito fadado ao esquecimento.

Que seja fruto, posto que é semente.

Das prateleiras ao caos e então o ser

8 abr

Às vezes sinto uma necessidade monstruosa de organizar minhas coisas. Como se cada objeto sempre estivesse no lugar errado. Me corrói, rouba meu sono e minha tranquilidade. Não é transtorno. É ânsia. É vida, mudança! É eu!

Toma conta de mim e domina meu corpo numa efervescência ao mesmo tempo delirante, excitante e doentia. Inebria, amortece e me droga. Me leva para outro lugar, um de instâncias perdidas.

Me acho. Me encontro. Nunca me organizo. Ser pensante, vibrante, transformador, [não]transtornado, ativo, perdido, encontrado.

Vivo. Respiro. Deixo pra amanhã.

minha última leitura

6 abr

Este é um texto sobre o livro a máquina de fazer espanhóis, do valter hugo mãe.

A primeira coisa que me chamou a atenção para este livro foi a forma sensível do próprio autor falar sobre como a vida e a arte se comunicam no trabalho dele.

Quando peguei meu exemplar de a máquina de fazer espanhóis, recebi o mesmo alerta de duas pessoas: não lê. é pesado… Eles tinham razão. O começo me doeu tanto que o livro ficou parado por uns 3 meses. Quando venci a minha batalha ao lado da Clarice, retomei a leitura. Depois de encontrar meu reflexo, podia enfrentar essa dor também e terminar o livro que eu estava gostando tanto.

a máquina de fazer espanhóis

Meu avô morreu em 2011, enquanto eu estava na praia com amigos. E eu já sabia que isso aconteceria durante essa viagem. Ele estava muito fraco e ficou muito feliz de repente… Sinais que eu vi e que ainda hoje eu sofro por ter ignorado. Falar deste livro é falar do meu avô e de tudo o que eu gostaria de ter feito por ele e ter dito a ele e não o fiz. E isso dói.

Este livro merece um texto que eu ainda não estou à altura de fazer. Seria audacioso demais. Revelar cicatrizes de uma intimidade que não está pronta para se revelar também me dói.

Recomendo muito a leitura. É um daqueles livros que a gente quer dormir abraçadinho e não soltar nunca mais. Ainda mais depois que acaba. Vontade de ficar com ele(s) mais um pouquinho.

No sábado à noite

1 abr

Vi tua sombra na porta de um teatro. Num pequeno susto te reconheci. Sorri. Eu sabia que não era você, mas continuei sorrindo e imaginando encontrar teus olhos assim que virasse pra trás. De tanta curiosidade decidi olhar para o dono da tua silhueta.

Achei graça daquilo, onde já se viu querer conversar com uma sombra? Mas ali naquele perfeito ambiente da representação pensei na arte de sermos um o (ao) outro e lembrei das incansáveis conversas que temos sozinhos, mas sempre juntos.

Sorri novamente. Conversávamos, afinal. Eu e tua sombra, uma representação perfeita de nós dois na porta de um teatro. Uma rápida despedida.
A peça ia começar.

a humanidade chora

31 mar

enquanto professores e estudantes da rede estadual paulista (e tantas outras) imploram por justiça para que possam trabalhar com dignidade, uma parte injusta (e cheia de poder) da nossa sociedade prefere metralhar uma criança a abraçá-la e nutri-la com todo o amor e respeito que esta merece.

a injustiça acredita que punir é um bem maior que educar e o resultado disto é este ciclo no qual estamos aparentemente presos: violência, criminalidade, desinteresse político, ignorância, preconceito, desigualdade, desamor…

segundo o atual dalai lama, compaixão é a noção clara de que todos os seres têm exatamente o mesmo direito à felicidade. você acredita nisso? você entende isso? não podemos voltar no tempo e começar de novo, mas podemos parar e darmos início ao que é certo.

enquanto estamos “todxs” seguros, bem alimentados e começando mais uma pós-graduação, alguém chora de fome, frio e medo. alguém não voltará pra casa nunca mais. algum familiar nunca mais terá sonhos de ver suas crianças formadas na faculdade. alguma criança nunca aprenderá a ler ou escrever e nunca mais sairá do sistema prisional. tudo isso porque não tivemos coragem suficiente para enfrentar nossos preconceitos, medos e responsabilidades.

 

Entre Clarices

20 mar

Entre Clarices é um projeto que surgiu sem que eu me desse conta da sua existência. A minha história também se escreve no que leio, já que escolho intuitivamente a obra seguinte. Nada cai na minha mão por acaso, a alma dos livros sussurra qual devo ler.

No fim do ano aconteceu um maremoto dentro de mim. Tive de questionar muitas das minhas escolhas até dezembro de 2014. Foi profundo e foi pesado. Muito solitário. Uma vida toda se fez filme na minha cabeça. O sono se foi, os prazeres perderam um pouco do sabor. Tive pouco tempo para me preparar para grandes mudanças e elas não esperaram a minha reflexão. E com essa coisa toda, não dava pra ler.

As leituras, sempre tão apaixonantes, se transformaram em letras embaralhadas na minha frente. Eu tinha medo de ler. De começar qualquer coisa, na verdade. Alguma coisa martelava na minha cabeça que estava na hora. Num impulso peguei o livro. Li as primeiras páginas em companhia da minha querida amiga-irmã-gema Dias e soube que, por mais que eu lutasse contra, era o momento de encarar aquele livro.

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Ser Clarice tem suas vantagens. Os livros sempre são escritos no instante em que estou lendo. E somente pra mim! Que mágico é isso. Terminei ontem A Paixão Segundo G. H. no momento em que Didi entrava no quarto! Esses mistérios da minha vida… O que dizer? Pra você, nada. Pra mim, tudo foi dito. “Tudo está.”

Cada ciclo da minha vida, desde a decisão de não ler Clarice há mais de 15 anos é, inevitavelmente iniciado e ao mesmo tempo finalizado com Clarice. São períodos em que uma voz me diz: acho que está na hora de uma Clarice. É um caminho sem volta e cheio de flores. O que acontece no meio é alimento. Preparação pra ler Clarice, porque ela me entende. Somos unas na finitude de cada segundo. “Quando se realiza o viver, pergunta-se: mas era só isto? E a resposta é: não é só isto, é exatamente isto.”

Mas se você acha que só Clarice é capaz de me atropelar para me colocar no eixo, se engana. Minhas últimas leituras foram tão intensas que precisei recuperar o fôlego depois de cada uma. Vejo agora uma trajetória fantástica e transformadora. E só pra atualizar a lista, eu estava lendo um montão de livros. Terminei dois deles e guardei alguns. Segue o post que era pra ser outro e que agora é um. 2014 foi assim:

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Tatiana Leskova – Uma Bailarina Solta no Mundo
Suzana Braga
“a finalidade da vida é a própria vida”
“O teatro é como uma religião. Quando você chega e pisa no palco, você precisa acreditar na sua mística – e se entregar. É uma comunhão, é como entrar numa igreja. E para isso é preciso ter muito, mas muito respeito à arte…”

Ela Prefere as Uvas Verdes
Jader Pires
Não vai ter trecho. Vai ter mistério. Leia.

Quando tudo se desfaz: orientações para tempos difíceis
Pema Chödrön
Resgatou o passado dolorido e abriu aquela janela emperrada. Uma profunda reverência às amigas Suzana e Marlise por me lembrarem que o caminho está aqui dentro e é meu.

Entre os Atos
Virginia Woolf
Adoro as imagens poéticas dela. As três últimas páginas são incríveis. De resto, é o segundo livro dela que leio tentando ler o que ela sentia. O que estaria sentindo ao escrever aquelas palavras? Talvez não precise de seus livros, talvez precise de uma sessão espírita.

O Amor nos Tempos de Cólera
Gabriel García Márquez
“Só me dói morrer se não for de amor.”

Meio Sol Amarelo
Chimamanda Ngozi Adichie
Não deu pra respirar, pensar ou ler qualquer coisa por um tempo depois desse livro. Intenso.

Que continue. 

os suspiros da noite

18 mar

eu poderia sussurrar no seu ouvido tudo o que eu sinto
mas que validade isso teria se o que eu mais desejo é encontrar a mim mesma?

por meses as noites passam e os suspiros perdem sua vivacidade
os sonhos são confusos, por vezes tenebrosos
uns chegam, outros vão

assim são os sonhos, os medos e os amanhãs.

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