Como você pensa a sua cidade?

29 set

Época de eleição sempre me faz [re]pensar o que faço pela minha cidade ou pelo meu país. Desde 2002 tenho me interessado cada vez mais sobre a política nacional. Tudo começou com uma professora de geopolítica daquelas bem apaixonadas pelo tema. Todo mundo já teve uma pessoa assim na vida. Alguém que, de tão apaixonad@, desperta a mesma paixão em outras pessoas.

Eu tinha 17 anos quando Lula finalmente foi eleito presidente. Era semana da viagem de formatura e lembro de ficar bem preocupada com o que isso significaria para o Brasil. Desde então, muito do que eu entendia por política amadureceu com a idade, com as minhas escolhas e ideais para o mundo que eu queria ver acontecer. Entrar na universidade pública fez toda a diferença. Sou mulher de classe média e sempre estudei em colégios particulares ouvindo coisas como “se você não se comportar bem ou tirar notas ruins, vou te colocar na escola pública”. Eu tinha medo do público. Ele era um castigo e não parte da minha vida. Hoje, aos 31 anos, a esfera pública tomou outra dimensão. Pra mim ela é objetivo e não castigo, é onde eu quero estar.

Desde que me entendi uma pessoa de esquerda, tenho tentado aliar meus ideais às minhas ações e elas passam invariavelmente pela eleição. Me pego pensando em como atuar neste campo através do meu voto e das minhas palavras. Tenho tentado ser coerente com o feminismo e a representatividade em tudo que escrevo e penso. Para tal, seria óbvio que, nesta eleição municipal, eu votasse numa mulher que tenha a mesma coerência que eu procuro obter um dia. Mas a situação política que vivemos não está facilitando essa minha posição.

Refletir sobre o que é bom para a minha cidade me fez ter mais dúvidas do que convicções, questionamentos sobre como me posicionar para que a cidade seja respeitada em suas conquistas e necessidades. É preciso deixar de lado meus interesses privados para que essas necessidades da cidade sejam atendidas.

Analisando o risco que corremos se candidatos como Doria, Russomanno ou Marta assumirem a cidade, é preciso votar com estratégia. E talvez isso signifique votar não com o coração, mas com possibilidades. Ter de escolher entre Erundina e Haddad me deixa ao mesmo tempo feliz e angustiada. É preciso pensar na minha cidade independente de mim, mas com a minha participação. Permitir que projetos sociais consistentes sejam jogados no lixo não é algo que estou disposta a fazer, e aquelas três pessoas o farão. Disso não tenho dúvidas. E ainda assim me pergunto: faço do meu voto uma posição da coerência que busco? Abro mão da representatividade feminista [mesmo que não totalmente] ou ajudo uma força grupal a continuar um trabalho tão intenso de transformação de São Paulo? Honestamente, ainda não tenho uma resposta para isso. Sei que meu voto é só um, mas é a minha voz desejando o melhor para minha cidade.

Já é batido dizer que temos de votar com consciência, mas neste momento que estamos, isso se faz mais urgente do que nunca. Estamos definindo qual a prioridade coletiva da cidade e isso afetará tod@s, contudo, afetará ainda mais @s que não são de classe média ou alta e é nessas pessoas que temos de pensar. Sei que ambas as propostas de Erundina e Haddad se alinham mais com a transformação social que desejo. E sei também que Doria, Russomanno e Marta estão totalmente afastados da coerência social e política que São Paulo precisa.

Como pensamos e agimos nossa cidade? Como faremos? Com quem faremos? Confesso que ainda não encontrei a resposta. Certamente a terei até domingo e espero que tod@s consigam uma que faça sentido ao ideal que temos de uma boa cidade para se viver. Os tempos são difíceis e estamos tod@s à flor da pele. Que isso não nos impeça de votar com sabedoria.

E só para concluir, hoje e sempre, FORA TEMER!

Clariceando-me

16 set

Às vezes me pergunto como Clarice contaria a minha história. Como ela escreveria a minha vida se eu lhe perguntasse o que fazer com ela. Eu seria uma daquelas personagens que me encontraria dentro ou fora de mim? Que aventuras eu viveria ou deixaria de viver por suas palavras?

Se me fosse dada a oportunidade, eu pediria a Clarice que me desvendasse num longo romance. Não que isso já não aconteça nas histórias que não são sobre mim, mas acredito que se eu fosse transformada num de seus mistérios, meu reflexo seria outro. Seria eu um espelho de outra pessoa? Alguém mais livre de mim ainda que eterna?

O que Clarice me diria se eu me oferecesse a ela? Se nos déssemos de presente uma à outra? Ah! Se eu fosse uma personagem tão importante assim que merecesse ganhar um próprio livro! Mas não. Sou apenas eu me imaginando escrita pela própria inspiração. Pois Clarice já me fez em suas mulheres. Basta escolher qual.

“In”maginando

5 set

Quando eu imagino o futuro, vejo um lugar amplo onde as crianças correm por entre as árvores e os raios de sol. Também vejo infinitas prateleiras de livros com todos os diferentes nomes que se possa conhecer, inclusive o meu. Vejo cadernos espalhados pela sala de onde brilham letras e traços coloridos como as que vejo no meu corpo refletido no espelho.

No futuro existem muitas boas histórias para contar. Delas escorrem algumas lágrimas e muitas risadas são ouvidas. Não há mais cicatrizes e se pode andar livremente na rua. No jardim se estende uma longa mesa repleta das gerações que construímos. Tod@s cozinham junt@s e dormem sob o mesmo céu.

A fogueira vive acesa e os violões nunca param de tocar. No meio da fumaça, dança. Muita dança e muito canto. Na roda, ninguém pertence a ninguém. Tod@s pertencem unicamente a si mesm@s. Existe amor e existe beijo. As mãos dadas se tocam e se trocam com calor e respeito. É um tempo bom.

poesia bêbada

25 ago

sobre fazer poesia não sei

sei regar minhas palavras com vinho e com meus beijos.

sei também que a noite me habita

e que a dança gira dentro de mim

como as saia das minhas mulheres mais antigas.

escrever me embebeda enquanto me danço,

me rezo, me beijo, me sinto!

o calor da noite é maior do que eu.

ele me escreve e me toma como se fosse somente sua…

ou minha.

bebo em minhas palavras mais uma vez

a inspiração que busco fora de mim.

danço minhas palavras como a bebida cai em meus lábios.

é fogo. é noite. é vida. é eu.

Te desafio a viver

23 ago

Fazer aniversário é um grande desafio. É um momento de confronto entre passado e futuro. A gente esquece rapidamente o presente e se foca em tudo o que já fez até agora, o que gostaria de realizar nos próximos anos e se deixa levar por uma onda morna de sonhos e expectativas. Há muitos anos eu não faço um desejo de aniversário e acho que isso se deve aos processos de autoconhecimento que me cercam.

À medida que nos encontramos com nossos medos e desejos, fica mais explícito que o pedido de aniversário nada mais é do que uma ânsia por algo bom e, parando pra analisar, coisas boas estão presentes no dia a dia. Não é algo que precisamos desejar num momento único ou numa data especial. Basta estar entregue para perceber como celebrar nossos desejos acontece sempre. Como aquele filme que você quer muito assistir e consegue ou aquele dia em que você se permite dormir até mais tarde. Coisas simples, boas e óbvias que nos ocorrem o tempo todo.

O desafio se faz presente quando essa consciência dos acontecimentos se faz constante, quando enfrentamos as adversidades para conquistar nossos sonhos. Aos 31 anos, não tenho mais a necessidade de conquistas gigantescas. Elas simplesmente vão acontecendo conforme vivo. Existe uma tranquilidade na apropriação do desafio como algo corriqueiro, simples. Não existe fúria, mas existe garra, vontade, ação. Nem por isso o desafio se torna simples de enfrentar. É apenas parte do dia de qualquer pessoa atenta.

Desafiar-se é necessário e excitante e desejar é hábito. São 31 anos de tentativa e erro em busca da compreensão do que isso significa. Quando fiz 28 anos senti que eu podia tudo. Sentia que o mundo era meu. Havia uma alegria em mim que hoje reconheço como mais um desafio vencido. Um desafio imposto por mim mesma para que eu descobrisse a minha voz. Hoje ela se faz escrita e me abre cada dia mais portas, novos desafios. Daqueles que nos despertam medo e um sorriso disposto a vencê-lo.

Cada dia que passa fica mais nítido que o enfrentamento é luta e é conquista. E que esses medos estarão sempre presentes na nossa vida, mas não são mais tão assustadores para nos fazerem passar a noite em claro com a luz acesa. É possível dormir e escolher a hora de lutar. Os desafios são nossos parceiros, são os tapas na cara e os abraços acolhedores. São pergunta e resposta. Desafiar-se é querer vencer nossos próprios limites, é tudo de mais importante e, ao mesmo tempo, é simplesmente é viver. É preciso dizer à vida que estamos pront@s para isso e partir mesmo sem preparo. Ele pode acontecer no caminho ou pode nunca acontecer. Que diferença faz quando apenas se vai em busca de?

A verdade é que o infinito nos espera e sempre o fará. Não há porque ter pressa. É preciso fazer logo as malas e partir, mas apenas quando for a hora de pegar o trem. Não acredito mais que exista o último trem ou que o tempo já passou. O tempo é meu, seu e de quem mais quiser tê-lo. Perdeu esse? Pega o próximo. Quer desistir? Volta pra casa. Sem pressa, sem medo e sem orgulho. Deixa viver que o próximo desafio te espera e logo te encontra.

Quando um leão perde a juba

15 ago

Quem tem cabelo cacheado sabe como é difícil o processo de deixá-lo crescer. Às vezes demora anos para que ele chegue ao comprimento sonhado e bate uma tristeza quando chega a hora do temido corte pra “aparar as pontas”. O cabelo encolhe e parece que uma boa parte dele foi perdida com a tesoura.

Pois é, aconteceu comigo. Comecei a pensar sobre ter o cabelo comprido há uns quatro anos, quando comecei um processo de descoberta da minha feminilidade e de acolhimento do meu corpo gordo. Foi nessa época que eu senti que precisava poder trançar o cabelo como as mulheres de antigamente e fazer rodopiar as saias que antes me assustavam.

Nessa época eu deixei de lado as calças e me foquei em como me sentir bela todos os dias, não só naqueles em que me produzia para algum evento. Desisti de vez das dietas que nunca surtiram efeito e passei a olhar o meu corpo todos os dias em busca daquilo que fazia meus olhos brilharem.

Quando a gente é gorda, a sociedade faz questão de deixar bem registrado que nada está digno de ser chamado de bonito. Vez ou outra vem aquela frase infeliz cheia de “boa intenção” a respeito do rosto bonito que temos. Pode ter certeza que isso está muito longe de ser um elogio.

Pois muito bem. Nesta de me olhar no espelho, tive duas certezas: meu cabelo era lindo e minhas pernas maravilhosas. Investi. Deixei a juba crescer, armar e se colorir cada vez mais e passei a usar saias curtas, mini-saias e vestidinhos rodados. Coisa que gorda “não podia fazer”. Minha vaidade que sempre foi latente se fortaleceu como uma grande parceira. O que antes era esforço se tornou então um grande prazer. Falar sobre o meu corpo virou um hábito bom e meu cabelo foi ficando cada vez mais saudável do ponto de vista do meu querer. Aí veio a bomba. Uma doença de pele sacana que se recusa a ir embora. Nessa hora sobra pouco mesmo pra gostar. Mas meu cabelo estava lá, firme e forte. Crescendo com o meu bem estar até que eu pude olhar e ver o tal rosto bonito junto com um corpo belíssimo, machucado, mas apaixonante.

A Hidradenite é uma doença sapeca e é bem comum ter dores fortes. Dançar se tornou uma dificuldade e pouco a pouco tive que buscar mais força ainda no que havia cultivado de mais meu, a juba. Como o desemprego chegou, parei de vez de cortar o cabelo em salão pra não gastar ainda mais do que podia. Mas esta semana decidi que seria bom dar uma arrumadinha nas pontas estragadas.

Lá fui eu pro salão retocar o belo magenta e arrisquei. “Tô apaixonada pelo meu cabelo comprido. Nunca me senti tão eu e tão viva. Ele me dá forças pra passar pela doença. É minha marca, mas preciso acertar o corte. Deixa bem comprido e tira essa ponta feia.” – eu disse sorrindo. Quando cheguei em casa já estava aos prantos. Tiraram de mim muito mais que dez dedos de cabelo, tiraram o meu amor. Meu jeito feliz de me olhar e o sorriso que sempre me dava ao passar pelo espelho. Foram dois dias chorando e a certeza de que aquela pessoa no reflexo não era eu. Eu fui roubada por alguém que não respeitou o meu corpo.

Sabe, pra muita gente isso parece um drama frívolo. Mas pra quem passa por um processo de anos de aceitação e acolhimento do corpo gordo e consegue finalmente chegar ao ponto de se amar plenamente pra logo depois ter de enfrentar uma doença autoimune de pele que destrói toda a sua construção, ter algo tão definidor de personalidade e beleza arrancado assim sem autorização, isso é um desastre.

“Cabelo cresce”, me disseram. Mas não são os olhos das outras pessoas quem tem de enfrentar o espelho e não se reconhecer no reflexo. Não são os olhos das outras pessoas que perdem o brilho. Não é o amor das outras pessoas por você que fica abalado. É o seu. É o seu enfrentamento diário contra a gordofobia que balança, é a resignação com a doença que se torna mais difícil. É o amor próprio que se perde na forma de se ver. É uma luta que estava no caminho da vitória e levou uma rasteira.

Esse pode ser um texto sobre aparência física, mas na verdade é um texto sobre empoderamento, amor próprio e respeito ao corpo. Quando tudo o que se cultiva socialmente para a mulher é seu corpo, fica evidente que a batalha contra o padrão também será por ele. Onde e quando são roubadas de nós estas chances de fortalecimento da vontade e da beleza que cada pessoa escolhe ter? Quem nos corta a possibilidade do sorriso frente ao espelho? Como passar por todos esses processos e recaídas de dores fortes que nos impedem de dançar? Ontem chorei por não possuir mais um longo cabelo e o sorriso de antes pra me sustentar. Chorei ontem menos do que já chorei nos dias em que o espelho era meu inimigo. É certo que uma vez que se começa o caminho do empoderamento, o retorno parece improvável, entretanto as recaídas são difíceis e é preciso respeitá-las com os mesmos braços abertos que lançamos às conquistas.

dos versos de amor e saudade

11 jul

vem, me balança no seu colo até tudo passar

olha nos meus olhos e diz que tudo vai ficar bem

esquece o que passou, aquilo não importa mais

me abraça forte e me espera adormecer

sonha comigo, sonha em mim

que eu estou te esperando acordada.

vem ver o sol nascer mais uma vez.

a saudade aperta e me faz lembrar você.