poesia bêbada

25 ago

sobre fazer poesia não sei

sei regar minhas palavras com vinho e com meus beijos.

sei também que a noite me habita

e que a dança gira dentro de mim

como as saia das minhas mulheres mais antigas.

escrever me embebeda enquanto me danço,

me rezo, me beijo, me sinto!

o calor da noite é maior do que eu.

ele me escreve e me toma como se fosse somente sua…

ou minha.

bebo em minhas palavras mais uma vez

a inspiração que busco fora de mim.

danço minhas palavras como a bebida cai em meus lábios.

é fogo. é noite. é vida. é eu.

Te desafio a viver

23 ago

Fazer aniversário é um grande desafio. É um momento de confronto entre passado e futuro. A gente esquece rapidamente o presente e se foca em tudo o que já fez até agora, o que gostaria de realizar nos próximos anos e se deixa levar por uma onda morna de sonhos e expectativas. Há muitos anos eu não faço um desejo de aniversário e acho que isso se deve aos processos de autoconhecimento que me cercam.

À medida que nos encontramos com nossos medos e desejos, fica mais explícito que o pedido de aniversário nada mais é do que uma ânsia por algo bom e, parando pra analisar, coisas boas estão presentes no dia a dia. Não é algo que precisamos desejar num momento único ou numa data especial. Basta estar entregue para perceber como celebrar nossos desejos acontece sempre. Como aquele filme que você quer muito assistir e consegue ou aquele dia em que você se permite dormir até mais tarde. Coisas simples, boas e óbvias que nos ocorrem o tempo todo.

O desafio se faz presente quando essa consciência dos acontecimentos se faz constante, quando enfrentamos as adversidades para conquistar nossos sonhos. Aos 31 anos, não tenho mais a necessidade de conquistas gigantescas. Elas simplesmente vão acontecendo conforme vivo. Existe uma tranquilidade na apropriação do desafio como algo corriqueiro, simples. Não existe fúria, mas existe garra, vontade, ação. Nem por isso o desafio se torna simples de enfrentar. É apenas parte do dia de qualquer pessoa atenta.

Desafiar-se é necessário e excitante e desejar é hábito. São 31 anos de tentativa e erro em busca da compreensão do que isso significa. Quando fiz 28 anos senti que eu podia tudo. Sentia que o mundo era meu. Havia uma alegria em mim que hoje reconheço como mais um desafio vencido. Um desafio imposto por mim mesma para que eu descobrisse a minha voz. Hoje ela se faz escrita e me abre cada dia mais portas, novos desafios. Daqueles que nos despertam medo e um sorriso disposto a vencê-lo.

Cada dia que passa fica mais nítido que o enfrentamento é luta e é conquista. E que esses medos estarão sempre presentes na nossa vida, mas não são mais tão assustadores para nos fazerem passar a noite em claro com a luz acesa. É possível dormir e escolher a hora de lutar. Os desafios são nossos parceiros, são os tapas na cara e os abraços acolhedores. São pergunta e resposta. Desafiar-se é querer vencer nossos próprios limites, é tudo de mais importante e, ao mesmo tempo, é simplesmente é viver. É preciso dizer à vida que estamos pront@s para isso e partir mesmo sem preparo. Ele pode acontecer no caminho ou pode nunca acontecer. Que diferença faz quando apenas se vai em busca de?

A verdade é que o infinito nos espera e sempre o fará. Não há porque ter pressa. É preciso fazer logo as malas e partir, mas apenas quando for a hora de pegar o trem. Não acredito mais que exista o último trem ou que o tempo já passou. O tempo é meu, seu e de quem mais quiser tê-lo. Perdeu esse? Pega o próximo. Quer desistir? Volta pra casa. Sem pressa, sem medo e sem orgulho. Deixa viver que o próximo desafio te espera e logo te encontra.

Quando um leão perde a juba

15 ago

Quem tem cabelo cacheado sabe como é difícil o processo de deixá-lo crescer. Às vezes demora anos para que ele chegue ao comprimento sonhado e bate uma tristeza quando chega a hora do temido corte pra “aparar as pontas”. O cabelo encolhe e parece que uma boa parte dele foi perdida com a tesoura.

Pois é, aconteceu comigo. Comecei a pensar sobre ter o cabelo comprido há uns quatro anos, quando comecei um processo de descoberta da minha feminilidade e de acolhimento do meu corpo gordo. Foi nessa época que eu senti que precisava poder trançar o cabelo como as mulheres de antigamente e fazer rodopiar as saias que antes me assustavam.

Nessa época eu deixei de lado as calças e me foquei em como me sentir bela todos os dias, não só naqueles em que me produzia para algum evento. Desisti de vez das dietas que nunca surtiram efeito e passei a olhar o meu corpo todos os dias em busca daquilo que fazia meus olhos brilharem.

Quando a gente é gorda, a sociedade faz questão de deixar bem registrado que nada está digno de ser chamado de bonito. Vez ou outra vem aquela frase infeliz cheia de “boa intenção” a respeito do rosto bonito que temos. Pode ter certeza que isso está muito longe de ser um elogio.

Pois muito bem. Nesta de me olhar no espelho, tive duas certezas: meu cabelo era lindo e minhas pernas maravilhosas. Investi. Deixei a juba crescer, armar e se colorir cada vez mais e passei a usar saias curtas, mini-saias e vestidinhos rodados. Coisa que gorda “não podia fazer”. Minha vaidade que sempre foi latente se fortaleceu como uma grande parceira. O que antes era esforço se tornou então um grande prazer. Falar sobre o meu corpo virou um hábito bom e meu cabelo foi ficando cada vez mais saudável do ponto de vista do meu querer. Aí veio a bomba. Uma doença de pele sacana que se recusa a ir embora. Nessa hora sobra pouco mesmo pra gostar. Mas meu cabelo estava lá, firme e forte. Crescendo com o meu bem estar até que eu pude olhar e ver o tal rosto bonito junto com um corpo belíssimo, machucado, mas apaixonante.

A Hidradenite é uma doença sapeca e é bem comum ter dores fortes. Dançar se tornou uma dificuldade e pouco a pouco tive que buscar mais força ainda no que havia cultivado de mais meu, a juba. Como o desemprego chegou, parei de vez de cortar o cabelo em salão pra não gastar ainda mais do que podia. Mas esta semana decidi que seria bom dar uma arrumadinha nas pontas estragadas.

Lá fui eu pro salão retocar o belo magenta e arrisquei. “Tô apaixonada pelo meu cabelo comprido. Nunca me senti tão eu e tão viva. Ele me dá forças pra passar pela doença. É minha marca, mas preciso acertar o corte. Deixa bem comprido e tira essa ponta feia.” – eu disse sorrindo. Quando cheguei em casa já estava aos prantos. Tiraram de mim muito mais que dez dedos de cabelo, tiraram o meu amor. Meu jeito feliz de me olhar e o sorriso que sempre me dava ao passar pelo espelho. Foram dois dias chorando e a certeza de que aquela pessoa no reflexo não era eu. Eu fui roubada por alguém que não respeitou o meu corpo.

Sabe, pra muita gente isso parece um drama frívolo. Mas pra quem passa por um processo de anos de aceitação e acolhimento do corpo gordo e consegue finalmente chegar ao ponto de se amar plenamente pra logo depois ter de enfrentar uma doença autoimune de pele que destrói toda a sua construção, ter algo tão definidor de personalidade e beleza arrancado assim sem autorização, isso é um desastre.

“Cabelo cresce”, me disseram. Mas não são os olhos das outras pessoas quem tem de enfrentar o espelho e não se reconhecer no reflexo. Não são os olhos das outras pessoas que perdem o brilho. Não é o amor das outras pessoas por você que fica abalado. É o seu. É o seu enfrentamento diário contra a gordofobia que balança, é a resignação com a doença que se torna mais difícil. É o amor próprio que se perde na forma de se ver. É uma luta que estava no caminho da vitória e levou uma rasteira.

Esse pode ser um texto sobre aparência física, mas na verdade é um texto sobre empoderamento, amor próprio e respeito ao corpo. Quando tudo o que se cultiva socialmente para a mulher é seu corpo, fica evidente que a batalha contra o padrão também será por ele. Onde e quando são roubadas de nós estas chances de fortalecimento da vontade e da beleza que cada pessoa escolhe ter? Quem nos corta a possibilidade do sorriso frente ao espelho? Como passar por todos esses processos e recaídas de dores fortes que nos impedem de dançar? Ontem chorei por não possuir mais um longo cabelo e o sorriso de antes pra me sustentar. Chorei ontem menos do que já chorei nos dias em que o espelho era meu inimigo. É certo que uma vez que se começa o caminho do empoderamento, o retorno parece improvável, entretanto as recaídas são difíceis e é preciso respeitá-las com os mesmos braços abertos que lançamos às conquistas.

dos versos de amor e saudade

11 jul

vem, me balança no seu colo até tudo passar

olha nos meus olhos e diz que tudo vai ficar bem

esquece o que passou, aquilo não importa mais

me abraça forte e me espera adormecer

sonha comigo, sonha em mim

que eu estou te esperando acordada.

vem ver o sol nascer mais uma vez.

a saudade aperta e me faz lembrar você.

O preço do hoje

24 jun

É amigue, não tá fácil pra ninguém. O quilo do feijão já tá custando até 13 golpinhos. O do meu trabalho tá zero. Não tem trabalho, né?

Escrever? Ah, eu escrevo sim. Um rabisco aqui, outro ali. Uma anotação na monografia (xi, falta pouco!). Mas sabe o que sinto falta mesmo? Do mar. Ô beleza que é o mar. Mas não pense que é só isso não. Eu gosto do pacote completo: mar, sol e amigues.

Sinto falta dos sorrisos até o amanhecer, de acordar de mãos dadas e das músicas favoritas.

Eu podia visitar o mar qualquer dia desses. E levar toda família comigo. Minha família é grande que só vendo. Tudo boa gente. Gente que ama e não tem medo de amar.

O preço de ser adulte é que algumas coisas se complicam. Os golpinhos estão contados, as risadas não são mais todo dia e o mar fica um pouco mais longe de se ver. Mas a liberdade é maior. Isso é. Ô que beleza que é a liberdade de ser.

À espera de uma cor

22 jun

Não sei lidar com dia cinza. Adoro cores e quero elas por todo o meu céu. 

O dia tá cinza, o humor está cinza, a saudade está da mesma cor.

Tem dia que é assim, não colore nada. Só lembra a gente que tem muita coisa atravessada pra resolver. 

Cadê o sol que estava aqui dentro? Cadê o abraço quentinho? Cadê o vermelho, o azul, o verde, o rosa? Cadê?

Não sei. Fez uma pausa. Tirou férias. 

Paciência cinza. Paciência que a cor volta. 

Uma estrela, um sol

21 jun

Foi numa noite que você se anunciou. Ainda tinha outro rosto e até outro nome. Foi chegando como quem não queria nada, mas eu já sabia. Mudaria minha vida pra sempre.

Acalmou. Dormiu. Sonhou. E foi numa outra noite que você se anunciou de verdade. Uma implosão no útero. No dela e no meu. Num abraço te senti ainda pequenina. Uma força sem tamanho.

Numa noite não dormi. Acordei com o telefonema. “Malpha, você é titia!”. Pulei, chorei, sorri. E lá se vão quatro anos de muitos sorrisos. 

E que venham muitos mais. Muios anos de Maria Morena. Minha sobrinha. Meu amor. Minha família. 

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