Quando ele me beija até o fim

22 abr

O bom disso é que a gente tem se amado muito à distância. É! Nem precisa muito pra um sentir o cheiro do outro, lembrar o gosto do outro. É como se nossas línguas nunca tivessem se separado. Mas é claro que é amor! Amor tem de todos os tipos, maneiras. A nossa é assim, de perto e de longe. Quando estamos juntos é só carinho. Uma mão pega na outra, logo uma perna encosta na outra e quando a gente percebe já passou uma noite inteira dançando e se sentindo. É! A gente também chama isso de dança. E não é? Meu corpo entra no ritmo do dele, a respiração dele completa a minha, cada gesto tem seu tempo e seu porquê. O que eu mais gosto? É do braço dele. Juro! Não que eu não adore o resto do corpo dele… Nossa! Como eu adoro! Mas é que o braço tem alguma coisa de especial. Eu me sinto livre, entende? Quando ele me abraça, abraça com o corpo inteiro, mas é com o braço que ele me segura. Força? Não, tem nada a ver com força não. Quer dizer, ele é forte, pode segurar qualquer um, só não é disso que eu estou falando. É naquele braço dele que tudo acontece. O sentir, o sabor, o ritmo… Mesmo quando sinto ele entrando em mim, só me deixo gozar mesmo quando sinto o braço dele na minha cintura. E quando ele me abraça por trás? Quero me largar naquele abraço pra sempre e ficar lá sentindo seu braço, sua respiração e a sua boca no meu pescoço. É, tem razão. Também tem a boca dele. O beijo, sabe como é… é daqueles inesquecíveis. Ele beija macio e ao mesmo tempo com um vigor de fazer a gente perder a noção do tempo. Tem gosto de prazer absoluto. É isso, ele me beija também com o braço. Claro que isso é possível! Imagina um beijo que desliza pelo seu corpo inteiro sem nunca sair sa sua boca. Imaginou? É isso que acontece quando ele me abraça. Ele me beija com o corpo inteiro. Como é que isso tudo acontece? Ora! Na minha lembrança, na nossa memória, nos nossos encontros. Não, ele não é o único que me deixa assim, eu tenho muitos! Homens? Claro! Mulheres também. Eu já desejei não ter nenhum até que o encontrei neles. E encontrei nelas também. Mas aí é diferente. Te conto outro dia. Eu sei que parece mentira, mas se você já teve um braço assim envolvendo o teu pescoço e a tua cintura enquanto te beija, você sabe do que eu tô falando. Por que ninguém sabe? Porque isso é nosso, ninguém vai entender. Não é segredo não, só é um outro jeito de se beijar, dançar, se amar. É livre. É quando a gente quer. Eu sei que pra você é só sexo. Mas se é no sexo que a gente se entrega assim, que os corpos viram um, que os beijos são infinitos e que as bocas e o prazer estão em todo lugar, como isso não seria amor? O nosso amor é do começo ao fim. Você também quer experimentar? Claro! Só deixa eu dar uma olhada no seu braço…

o beijo e o rio

20 abr

deitei na cama com você mas te encontrei num rio de água calma e cristalina

quanto tempo que não te sentia refrescar minha alma

corpo em corpo, nus. sem dor, sem feridas, sem doença

te encontro num beijo, na noite ensolarada da tua língua, num sonho.

Uma mulher contra o golpe

19 abr

Daí teve o primeiro golpe. Chame como quiser. É um país livre (é? bom, por enquanto parece). Eu vou chamar de golpe. Passada a votação, estava eu largada na cama tentando dormir e uma coisa não me saía da cabeça: como as mulheres escreveriam essa parte da história. Bem, aqui estou eu respondendo à minha própria pergunta e fazendo a minha parte. Não quero fazer um texto sobre mulheres na política ou mulheres que escrevem sobre isso… Eu só quero escrever e deixar um pouco desse nojo sair.

Das poucas deputadas que temos, todas foram assediadas de uma ou outra forma. Teve gritos de “linda” (ó… que bonitinho da parte deles… ahan), teve vaia pra licença maternidade (oi? sim! teve!), teve mulher se exaltando e sendo chamada de forte (mas todo mundo viu seu sorrisinho nojento, tá?), teve mulher guerreira sendo chamada de histérica (nenhuma novidade. qualquer mulher que ouse levantar a voz pra se defender é “a louca do rolê”) e teve a mulher que sofreu o golpe. Golpe bem baixo. Bem sujo. Uma daquelas coisas que a gente espera não ver de novo.

A gente foi pra rua. Pediu. Implorou. Conversou. Gritou. Mas não teve jeito. Quando se quer o poder, não importa em que você vai pisar. E pisar numa mulher ainda é mais fácil. Sempre tem um monte de homem pra ajudar. Já homem denunciado é pra botar no alto! “Salvador! Cunha herói!”…
Façam-me o favor…

Mulheres contra o golpe - 05/04/2016

Mulheres contra o golpe – 05/04/2016

Teve gente mandando beijo, abraço, louvando, roubando, repetindo, repetindo, repetindo… Mas o que não me desceu de jeito nenhum foi a porcaria do cartazinho escrito “tchau, querida!”… Aquilo me deixou do avesso. Queria pegar aquele cartazinho e fazer cada deputadozinho o engolir todo picadinho. Pedacinho por pedacinho. Ai teve o absurdo e o meu sangue ferveu.

Como é que em pleno 2016 chega um sujeito e acha que exaltar torturador é legal? E pior! Ainda é permitido! Ninguém fala nada! Ninguém processa o homem! Tá lá, livre, cínico e feliz sendo deputado! Dedicar o voto a um ser que enfiou ratos em vaginas de mulheres vivas e conscientes e não acontece nada?! RATOS EM VAGINAS!!! É de vomitar. Pra dizer o mínimo. Por que você não fala logo a verdade, você e seus comparsas? Falem logo que é porque é mulher! Falem!

Pausa pra respiração.

Daí teve o momento “fazer a limpeza no facebook”. E teve um primo defendendo o sujeito Bolsonazi me comparando a estuprador. Sim, teve. Pra dizer o que eu acho bem sinceramente, ele é burro. Simples assim. Porque quem não sabe que gay, lésbica e bissexual não é igual a estuprador, é burro. Tchau. Terminamos. Não te amo mais. E nem doeu. E teve aquele amigo antigo que já tinha se transformado na própria sombra. Não é surpresa ele apoiar Bolsonazi. Mas é lembrar que ele dormiu na mesma cama que eu. Ele dividiu comigo sorrisos, lágrimas e intimidades. Sim, dividiu. E ele… bem… ele doeu. Dor. Sentimento de golpe.

Tem uma coisa que descobri quando a gente briga com amig@s… Às vezes a gente não gosta del@s e ainda assim gosta. Confuso. Difícil. Real. Então, pra entender isso, criei uma expressão um tempo atrás e ela diz assim: te amo pra sempre, mas te odeio agora.

Acho que é isso que aconteceu de ontem pra hoje. O “te odeio agora” fez meu sangue subir e querer quebrar tudo. São pessoas dizendo barbaridades. Não seres inventados, monstros fictícios. Não! São pessoas desejando a morte, o horror, a tortura. São pessoas passando por cima de pessoas. Pessoas fingindo que são honestas e boa parte acredita. E então, o golpe. Nada disso é novidade, mas pela deusa… Tá de foder.

Eu não vou fazer uma análise histórica do golpe. Vou aqui falar como sempre falo, sentindo. Eu te odeio agora. Odeio você que levantou o cartaz “tchau, querida!”, você que louvou torturador, você que curte o Bolsonazi, você que disse que ia votar contra e votou a favor, você que acha que mulher não deve estar na política, que o problema é a presidenta ser mulher, você que é cego o suficiente pra achar que a corrupção é invenção do PT e que antes estava melhor, você que gritou “Dilma, filha da puta”. Eu não sei se consigo te amar de novo. Porque isso que você fez foi baixo. Foi sujo. Foi nojento. Foi machista.

Mas eu sou mais forte que você. Mais forte que o seu ódio. Mais forte que o meu ódio, porque ele vai passar. Ele não vai me alimentar como alimentou você. Eu sou mulher, escrevendo sobre o golpe, sou guerreira e vou gritar, vou lutar, vou responder, vou protestar. Somos muitas e você não vai nos derrubar.

mulher-contra-o-golpe

 

Pela saída de Eduardo Cunha – clique aqui
Para denunciar Jair Bolsonaro – clique aqui

 

sobre sentir o laço

15 abr

às vezes dá saudade do que a gente sentia, mas não da forma que sentia.

é como se aquela fita bonita de antigamente estivesse tão desgastada que não segurasse mais o laço.

nem todo rompimento é ruim. nós só não sabemos o que fazer com a fita partida depois que o laço se desfaz.

então tentamos remendá-la de todas as maneiras e por algum tempo, pode até funcionar. mas não pra sempre.

nessas horas a gente se esquece dos belos laços nas caixas de presente que já deu e recebeu e só consegue enxergar a tal fita partida.

é difícil jogar fora. é difícil fazer laço com uma fita tão pequena. é difícil sentir de novo quando o como não está bem resolvido. até que compramos outras fitas novinhas, mais belas e mais resistentes.

como uma nova chance de sentir, um presente pra você mesma. 

versinho

11 abr

gira a saia dança

gira criança pião

gira sol manhã

gira, gira, gira

 

gira vida criação

gira amor inspiração

gira morte vida

gira, gira, gira

 

gira morte mudança

gira fruta doçura

gira sabor esperança

gira, gira, gira

 

gira manhã criança

gira pião dança

gira vida inspiração

gira, gira, gira

O silêncio da luta

8 mar

Hoje eu acordei com uma vontade tremenda de ficar em silêncio. Deve ser o hábito. Mulher sofre em silêncio. Demonstrar emoções não é uma coisa muito bem vista. A gente sempre chora em silêncio, pra ninguém achar que somos fracas.

A gente faz aborto em silêncio. Ninguém pode saber, é crime. Melhor guardar segredo e aguentar sozinha, pois filhx a gente faz sozinha.

A gente come em silêncio. Assim ninguém olha feio. A gente se acha bonita em silêncio. Se gostar é coisa de mulher “à toa”. A gente também não escolhe o vinho no restaurante, nem paga a conta. Isso é coisa do cavalheiro. Por que uma mulher faria isso? Não é ela que paga as contas.

A gente se corta e vomita em silêncio. Sente nojo do próprio corpo. A gente se sente sempre sozinha, então fica em silêncio. Mulher ora em silêncio porque tem que orar pra deus, a Deusa não existe mais nesse mundo. Também a colocaram em silêncio.

Toda mulher cria xs filhxs em silêncio, afinal o homem está cansado e já foi dormir. Mulher tem que parir em silêncio. Onde já se viu ficar berrando pra parir? Nem gritou na hora de fazer…

A gente é estuprada em silêncio e mesmo quando grita, ninguém ouve. Então a gente apanha e é abusada em silêncio. Quem vai acreditar na mulher nessas horas? Melhor ficar quieta. Por isso a gente morre em silêncio. Quase ninguém se importa se mais uma mulher for assassinada.

ilustração de Raquel Thomé

ilustração de Raquel Thomé

A gente não bebe, não fuma, não goza e não transa quando quer. É mulher “da vida” que faz isso. Mulher boa é a que fica em silêncio. Que não luta, não briga, não sonha, não constrói. Ficar em silêncio não é uma escolha, é uma obrigação.

Eu não quero comemorar hoje. Comemorar o quê? Meu salário mais baixo se sou branca e mais baixo ainda se sou negra? O meu medo de sair na rua? O aborto que eu vou chorar sozinha? O desprezo de quem me manda “me dar o respeito”?

Talvez eu tenha mesmo de ficar em silêncio hoje. Hoje eu estou de luto. De luto por todas as mulheres assassinadas por serem mulheres. Por todas as mulheres que morrem ao realizar um aborto ilegal. Por todas as meninas que perdem sua infância pra corrida pela sexualização imposta pela indústria da beleza. Por todas as mulheres gordas que perdem sua alegria e sua vida pras dietas, cirurgias e remédios pra emagrecer. Por todas as travestis e mulheres trans obrigadas a se prostituir e que morrem antes dos 30 anos. Por todas as mulheres negras sexualizadas ao extremo desde a infância. Por todas as empregadas domésticas que perdem a vida de xs filhxs pra criar x dxs outrxs. Por todas as lésbicas e bissexuais que são impedidas de ter sua família. Por todas as meninas não estimuladas na escola. Por todas que não conseguem frequentar a escola. Por todas as mulheres negras que sofrem com o racismo desde pequenas e isso nunca para!

Hoje eu estou de luto pelos gritos que não dei até agora. Pelo medo que sinto de ser assediada de novo. Pelo não direito ao meu corpo. Pelo desprezo que recebo quando digo que sou feminista e que escrevo sobre a mulher. Pelo sarcasmo que recebo quando digo que mulheres não têm os mesmos direitos que os homens. Pela categorização do que é de homem e o que é de mulher. Pelos trabalhos que não consegui e pelo que me restou por ser mulher. Pelos orgasmos que fingi ter e pela dor que eu escondi sentir. Pelas mentiras que contei pra me proteger.

ilustração de Tainá Ceccato

ilustração de Tainá Ceccato

Hoje eu estou de luto pelo silêncio imposto às mulheres pelo governo, pela mídia, pela família, pelas igrejas, pela violência, pelo medo, pela raiva, pelo mercado de trabalho, pela indústria da beleza, pela moda, pelos “costumes”, pela lei, pelo desprezo.

Chega de silêncio. De luto. Na luta. Ninguém nos cala mais.

 

Ao bater a porta

7 fev

Ele mudou tanto nos últimos anos que parece que não nos conhecemos. Bastou sair do quarto naquela noite e ele se transformou em alguém com quem nunca me deitei. Tinha outro cheiro, outros amigos, outro gosto. Era um homem novo e muito diferente do que amei. 

Não sei bem quando foi que percebi. Talvez na semana seguinte, talvez alguns meses depois, mas ele tinha outra pele. É claro que já não nos tocávamos como antes nem na última transa. Mas eu lembrava da sua pele quando toque sua mão no final daquele ano. Foi como encostar numa antiguidade saber que aquilo algum dia teve um valor muito especial e que agora não transmite mais nada.

Às vezes vejo uma foto dele e me pergunto que é. Quem seria ele hoje? Claro que também mudei muito nesses anos, mas como é que ele ficou irreconhecível?

É sempre assim, num minuto o vejo lá, saindo por aquela porta. De repente tudo o que vejo é aquela mão sem vida segurando a minha. Num piscar de olhos se passam dez anos e vejo uma foto. Segundos depois esqueço completamente que já o conheci, pois não o reconheço mais.

A porta bate. Ele vai embora.

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