36 maneiras de ser contra a cultura do estupro

27 maio

Recentemente me perguntaram o motivo de só escrever sobre mulheres e nunca sobre homens. Bem, primeiro, eu não escrevo só sobre mulheres, eu escrevo sobre o que eu quiser ou sobre o que me pedirem pra escrever. Em segundo lugar, eu sou mulher e escrevo. Portanto, eu escrevo sobre mulheres. Eu o faço por gostar, pelo empoderamento, pela arte, pela produção feminina e sua valorização.

Estamos em 2016 e muita coisa já deveria ter mudado no que diz respeito às mulheres. E não é individualmente delas que eu estou falando. É de tudo que está relacionado a ser mulher. Então eu também escrevo sobre isso porque é necessário.

Escrevo sobre mulheres pois ainda hoje não somos respeitadas, não temos os mesmo salários que os homens e ainda não temos direito pleno ao nosso corpo. Isso vai desde o simples fato de não poder menstruar em paz (no caso das mulheres cis), até o policiamento das palavras que usamos, roupas que vestimos, estilo dos nossos cabelos, dos pelos no corpo. Vai do direito de escolhermos ser mães ou não ao direito à segurança. Somos seres sociais com menos direitos sociais. Coisa que muita gente ainda não percebeu ou aceitou. E esse “muita gente” é você, homem. Então hoje, o meu texto é para vocês.

No Brasil, ser mulher ainda significa ser inferior. Ser mulher negra ou trans significa menos ainda. Já ser homem significa ter todos os direitos possíveis se você for branco e cis. Inclusive ter o direito de nos estuprar. Sim. Você homem tem esse direito e sabe por quê? Porque você nunca é o culpado. É sempre a nossa roupa, o nosso comportamento ou local onde estamos. E nem adianta vir com aquele argumento “nem todos os homens”.

nao estupre

Vocês homens possuem todo o sistema a favor de vocês. Todos saem rapidamente em defesa dos homens ao mesmo tempo que nos culpam por seus atos e descontroles. São vocês que dizem que exageramos, que demos o sinal errado, que estávamos pedindo. São vocês que estupram uma mulher a cada 12 minutos, sendo a maioria negra, vítimas do racismo sistematizado. Portanto, sim, todos os homens podem ser estupradores em potencial. Mas você não quer ser isso, quer? Você quer estar ao nosso lado dizendo que também não concorda com isso, não é mesmo? Pois então, aqui fica um manual simples de ações e lições de como ser contra a cultura do estupro na prática:

  1. Não estupre
  2. Impeça estupros
  3. Denuncie estupros
  4. Repudie piadas machistas
  5. Diga aos seus amigos que a forma como eles tratam mulheres é errada
  6. Não apoie ou incentive seu amigo a beijar uma mulher a força
  7. Não divulgue fotos de mulheres nuas ou seminuas. Quando isso acontecer, denuncie
  8. Não fique em silêncio ao ver uma mulher numa situação violenta
  9. Tente lembrar quantas vezes você transou com uma mulher bêbada, pode ter sido um estupro
  10. Não significa não
  11. Assistir a uma cena de violência contra a mulher e não fazer nada faz de você um cúmplice, não um “brother”
  12. Acredite na mulher quando ela disser que você está sendo machista. Fique em silêncio, a escute e reflita
  13. Se coloque no lugar da mulher e se pergunte se gostaria de estar nessa posição
  14. Ao pedir desculpas por uma ação machista, não a repita nunca mais. Caso contrário, suas desculpas não servem de nada
  15. Lembre-se: NINGUÉM MERECE SER ESTUPRAD@
  16. Denuncie a violência contra a mulher
  17. Nunca culpe a vítima. NUNCA! Entendeu?
  18. Não fique falando por aí como você é diferente de um agressor. Apenas não seja um. Suas ações dizem muito mais sobre você do que seu discurso
  19. Não finja que você nunca forçou a barra
  20. Se você cometeu um erro, assuma a responsabilidade por ele
  21. Lembre-se: você não merece confete por uma atitude não machista
  22. Nunca, em contexto algum, use argumentos biologizantes como “homens são assim mesmo” para justificar um comportamento violento ou abusivo, mas saiba que esse comportamento tem origem na maneira como homens são educados e que, portanto, é cultural
  23. Lembre-se: estupro não é sexo
  24. Em briga de marido e mulher se mete a colher sim! Não se omita em casos de violência doméstica
  25. Conscientize seus amigos e familiares sobre o estupro
  26. Não compactue com pessoas, causas ou mídias que façam apologia ao estupro ou o romantizem
  27. Não suavize os danos emocionais, físicos e psíquicos de um estupro
  28. Também fazem parte da cultura do estupro: assédio moral e sexual; piadas, gírias e expressões machistas; cantadas de rua
  29. Aceite que mulheres têm o direito de estar com raiva dos homens. Elas têm
  30. Não são as mulheres que precisam se dar ao respeito. É você que precisa respeitá-las
  31. O estupro não é menos violento por ter “apenas” um agressor. Estupro é inaceitável em todos os contextos
  32. Não ridicularize ou suavize o estupro com piadas ou comentários condescendentes
  33. Não se acomode achando que “é assim que as coisas são”. Não. É assim que as coisas estão. Você pode mudá-las
  34. O estupro não é um comportamento natural
  35. Lembre que você faz parte do “coletivo” homens e que este é um coletivo opressor
  36. Estupro é crime

Esses e outros lembretes lhe serão dados sempre. Não os ignore. Não os esqueça. Não deixe sua manifestação contra a cultura do estupro apenas no seu discurso. Se você realmente quer mudar isso, aja como um homem contra o estupro.

fimdacultdoestupro

imagem símbolo do feminismo negro. mulheres negras são as que mais sofrem com a violência contra a mulher. na maioria dos casos, simplesmente por ser negra. diga não ao racismo e à violência contra a mulher

 

Links que você precisa conhecer:
Ligue 180 para denunciar a violência contra a mulher
Mapa da violência

saudade

23 maio

saudade do tempo

do vento

da lua

da chuva

da dança

saudade da estrada

do riso

da música

do beijo

da onda

do sol

saudade da vida

sem medo

sem tempo

sem nuvem

saudade sem ter

te tendo

e te amando

sem medo…

ou com medo

só um pouquinho

de medo

de saudade

Uma boa noite

14 maio

Hoje eu tive uma boa noite. A convite da minha querida Mya, assisti shows de Nando Reis e Teatro Mágico. TM eu não conhecia  muito bem e tinha bastante preconceito, mas foi bem divertido! Já o Nando… Bem, o Nando. 

Dos meus compositores favoritos, Nando Reis é um que coloca no palco imagens poéticas de uma imensidão capaz de me balançar inteira. Ele toca minha alma com muito calor e delicadeza ao mesmo tempo que a invade sem medo. Ver  Nando pela primeira vez no palco é também estar um pouco com Cássia Eller. Fiquei imaginando Nando pensando nela em cada música como se eu pudesse ouvi-lo falar com ela, cantar pra ela, com ela. Cássia é Nando e Nando é Cássia. Amizades assim transformam a gente. Tão fortes que burlam a morte para se encontrar.

Hoje também foi a primeira vez que saí sem curativos em 3 anos. Tenho hidradenite supurativa e isso se tornou um grande impedimento para usar regatas, roupas coladas e alguns tecidos. Minhas axilas estão com uma inflamação constante e dolorosa.

Resultado de muitas rejeições, violências e medos, essa é uma doença e tanto pra quem aguenta um desafio. Mas hoje ela não foi. Hoje eu mostrei pela primeira vez parte dessa inflamação pra Tati, minha querida irmã-amiga-cunhada. A Tati é um dos meus principais apoios. Ela tá sempre comigo e sempre de coração aberto, assim como procuro estar para ela. Minha vida não tem vida sem Tati. 

Arrumando as roupas pra mudança, Tati me deu de presente um vestido. Lindo. Amei! Cavado… e agora? Eu não uso roupa sem manga. Não mostro meus curativos. Mas então eu o vesti. Quer dizer, acho que ele me vestiu. Lá estava eu pensando em nunca mais sair da frente do espelho e lutando contra a exposição. 

Medo. Coragem. Apoio. Vou usar. E usei. Foi fácil não. Tive alguns momentos de receio e de conversa. Tanta gente que se acaba de tristeza por uma pinta, o que é uma pele machucada? É só outro tipo de pinta. E foi pela primeira vez em anos eu esqueci da minha doença, da minha dor, do meu cheiro por algumas horas e simplesmente vivi. Dancei, cantei, sorri. Levantei os braços… Ufa! Como foi bom!

Nessa noite de primeiras vezes, agradeço por não ter medo, por não sentir dor, por esquecer a doença, por ver Nando, por sentir Cássia e pela Tati. Sem Tati não tem Malpha.

Quando ele me beija até o fim

22 abr

O bom disso é que a gente tem se amado muito à distância. É! Nem precisa muito pra um sentir o cheiro do outro, lembrar o gosto do outro. É como se nossas línguas nunca tivessem se separado. Mas é claro que é amor! Amor tem de todos os tipos, maneiras. A nossa é assim, de perto e de longe. Quando estamos juntos é só carinho. Uma mão pega na outra, logo uma perna encosta na outra e quando a gente percebe já passou uma noite inteira dançando e se sentindo. É! A gente também chama isso de dança. E não é? Meu corpo entra no ritmo do dele, a respiração dele completa a minha, cada gesto tem seu tempo e seu porquê. O que eu mais gosto? É do braço dele. Juro! Não que eu não adore o resto do corpo dele… Nossa! Como eu adoro! Mas é que o braço tem alguma coisa de especial. Eu me sinto livre, entende? Quando ele me abraça, abraça com o corpo inteiro, mas é com o braço que ele me segura. Força? Não, tem nada a ver com força não. Quer dizer, ele é forte, pode segurar qualquer um, só não é disso que eu estou falando. É naquele braço dele que tudo acontece. O sentir, o sabor, o ritmo… Mesmo quando sinto ele entrando em mim, só me deixo gozar mesmo quando sinto o braço dele na minha cintura. E quando ele me abraça por trás? Quero me largar naquele abraço pra sempre e ficar lá sentindo seu braço, sua respiração e a sua boca no meu pescoço. É, tem razão. Também tem a boca dele. O beijo, sabe como é… é daqueles inesquecíveis. Ele beija macio e ao mesmo tempo com um vigor de fazer a gente perder a noção do tempo. Tem gosto de prazer absoluto. É isso, ele me beija também com o braço. Claro que isso é possível! Imagina um beijo que desliza pelo seu corpo inteiro sem nunca sair sa sua boca. Imaginou? É isso que acontece quando ele me abraça. Ele me beija com o corpo inteiro. Como é que isso tudo acontece? Ora! Na minha lembrança, na nossa memória, nos nossos encontros. Não, ele não é o único que me deixa assim, eu tenho muitos! Homens? Claro! Mulheres também. Eu já desejei não ter nenhum até que o encontrei neles. E encontrei nelas também. Mas aí é diferente. Te conto outro dia. Eu sei que parece mentira, mas se você já teve um braço assim envolvendo o teu pescoço e a tua cintura enquanto te beija, você sabe do que eu tô falando. Por que ninguém sabe? Porque isso é nosso, ninguém vai entender. Não é segredo não, só é um outro jeito de se beijar, dançar, se amar. É livre. É quando a gente quer. Eu sei que pra você é só sexo. Mas se é no sexo que a gente se entrega assim, que os corpos viram um, que os beijos são infinitos e que as bocas e o prazer estão em todo lugar, como isso não seria amor? O nosso amor é do começo ao fim. Você também quer experimentar? Claro! Só deixa eu dar uma olhada no seu braço…

o beijo e o rio

20 abr

deitei na cama com você mas te encontrei num rio de água calma e cristalina

quanto tempo que não te sentia refrescar minha alma

corpo em corpo, nus. sem dor, sem feridas, sem doença

te encontro num beijo, na noite ensolarada da tua língua, num sonho.

Uma mulher contra o golpe

19 abr

Daí teve o primeiro golpe. Chame como quiser. É um país livre (é? bom, por enquanto parece). Eu vou chamar de golpe. Passada a votação, estava eu largada na cama tentando dormir e uma coisa não me saía da cabeça: como as mulheres escreveriam essa parte da história. Bem, aqui estou eu respondendo à minha própria pergunta e fazendo a minha parte. Não quero fazer um texto sobre mulheres na política ou mulheres que escrevem sobre isso… Eu só quero escrever e deixar um pouco desse nojo sair.

Das poucas deputadas que temos, todas foram assediadas de uma ou outra forma. Teve gritos de “linda” (ó… que bonitinho da parte deles… ahan), teve vaia pra licença maternidade (oi? sim! teve!), teve mulher se exaltando e sendo chamada de forte (mas todo mundo viu seu sorrisinho nojento, tá?), teve mulher guerreira sendo chamada de histérica (nenhuma novidade. qualquer mulher que ouse levantar a voz pra se defender é “a louca do rolê”) e teve a mulher que sofreu o golpe. Golpe bem baixo. Bem sujo. Uma daquelas coisas que a gente espera não ver de novo.

A gente foi pra rua. Pediu. Implorou. Conversou. Gritou. Mas não teve jeito. Quando se quer o poder, não importa em que você vai pisar. E pisar numa mulher ainda é mais fácil. Sempre tem um monte de homem pra ajudar. Já homem denunciado é pra botar no alto! “Salvador! Cunha herói!”…
Façam-me o favor…

Mulheres contra o golpe - 05/04/2016

Mulheres contra o golpe – 05/04/2016

Teve gente mandando beijo, abraço, louvando, roubando, repetindo, repetindo, repetindo… Mas o que não me desceu de jeito nenhum foi a porcaria do cartazinho escrito “tchau, querida!”… Aquilo me deixou do avesso. Queria pegar aquele cartazinho e fazer cada deputadozinho o engolir todo picadinho. Pedacinho por pedacinho. Ai teve o absurdo e o meu sangue ferveu.

Como é que em pleno 2016 chega um sujeito e acha que exaltar torturador é legal? E pior! Ainda é permitido! Ninguém fala nada! Ninguém processa o homem! Tá lá, livre, cínico e feliz sendo deputado! Dedicar o voto a um ser que enfiou ratos em vaginas de mulheres vivas e conscientes e não acontece nada?! RATOS EM VAGINAS!!! É de vomitar. Pra dizer o mínimo. Por que você não fala logo a verdade, você e seus comparsas? Falem logo que é porque é mulher! Falem!

Pausa pra respiração.

Daí teve o momento “fazer a limpeza no facebook”. E teve um primo defendendo o sujeito Bolsonazi me comparando a estuprador. Sim, teve. Pra dizer o que eu acho bem sinceramente, ele é burro. Simples assim. Porque quem não sabe que gay, lésbica e bissexual não é igual a estuprador, é burro. Tchau. Terminamos. Não te amo mais. E nem doeu. E teve aquele amigo antigo que já tinha se transformado na própria sombra. Não é surpresa ele apoiar Bolsonazi. Mas é lembrar que ele dormiu na mesma cama que eu. Ele dividiu comigo sorrisos, lágrimas e intimidades. Sim, dividiu. E ele… bem… ele doeu. Dor. Sentimento de golpe.

Tem uma coisa que descobri quando a gente briga com amig@s… Às vezes a gente não gosta del@s e ainda assim gosta. Confuso. Difícil. Real. Então, pra entender isso, criei uma expressão um tempo atrás e ela diz assim: te amo pra sempre, mas te odeio agora.

Acho que é isso que aconteceu de ontem pra hoje. O “te odeio agora” fez meu sangue subir e querer quebrar tudo. São pessoas dizendo barbaridades. Não seres inventados, monstros fictícios. Não! São pessoas desejando a morte, o horror, a tortura. São pessoas passando por cima de pessoas. Pessoas fingindo que são honestas e boa parte acredita. E então, o golpe. Nada disso é novidade, mas pela deusa… Tá de foder.

Eu não vou fazer uma análise histórica do golpe. Vou aqui falar como sempre falo, sentindo. Eu te odeio agora. Odeio você que levantou o cartaz “tchau, querida!”, você que louvou torturador, você que curte o Bolsonazi, você que disse que ia votar contra e votou a favor, você que acha que mulher não deve estar na política, que o problema é a presidenta ser mulher, você que é cego o suficiente pra achar que a corrupção é invenção do PT e que antes estava melhor, você que gritou “Dilma, filha da puta”. Eu não sei se consigo te amar de novo. Porque isso que você fez foi baixo. Foi sujo. Foi nojento. Foi machista.

Mas eu sou mais forte que você. Mais forte que o seu ódio. Mais forte que o meu ódio, porque ele vai passar. Ele não vai me alimentar como alimentou você. Eu sou mulher, escrevendo sobre o golpe, sou guerreira e vou gritar, vou lutar, vou responder, vou protestar. Somos muitas e você não vai nos derrubar.

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Pela saída de Eduardo Cunha – clique aqui
Para denunciar Jair Bolsonaro – clique aqui

 

sobre sentir o laço

15 abr

às vezes dá saudade do que a gente sentia, mas não da forma que sentia.

é como se aquela fita bonita de antigamente estivesse tão desgastada que não segurasse mais o laço.

nem todo rompimento é ruim. nós só não sabemos o que fazer com a fita partida depois que o laço se desfaz.

então tentamos remendá-la de todas as maneiras e por algum tempo, pode até funcionar. mas não pra sempre.

nessas horas a gente se esquece dos belos laços nas caixas de presente que já deu e recebeu e só consegue enxergar a tal fita partida.

é difícil jogar fora. é difícil fazer laço com uma fita tão pequena. é difícil sentir de novo quando o como não está bem resolvido. até que compramos outras fitas novinhas, mais belas e mais resistentes.

como uma nova chance de sentir, um presente pra você mesma. 

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